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Rui Faquini, o guardião do Cerrado

Ao longo do meio século de dedicação à fotografia, Rui Faquini enquadrou países como Japão e Suíça, mas jamais desfocou do Planalto Central
Rui Faquini (Foto: João Pontes)

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Descendente de italiano, goiano de nascimento e brasiliense por escolha, o fotógrafo Rui Faquini foi agraciado com a oportunidade de explorar as belezas naturais, culturais e arquitetônicas de países como o Japão ao longo de meio século de carreira. Apesar das buscas pelo melhor ângulo em territórios estrangeiros, o pioneiro de 79 anos jamais se desfocou do Cerrado, bioma registrado e protegido perenemente por ele. 

“Nós, brasileiros, precisamos resgatar a nossa autoestima, o que começa pela valorização das riquezas únicas do nosso País. O Cerrado é um exemplo”, declara Faquini, criador de diversos livros e exposições fotográficas sobre o “berço das águas”, uma das regiões mais biodiversas do planeta. 

Onde moraria o artista e guardião do bioma senão em uma casa em meio à imensidão do Planalto Central? Construída por ele a 45 quilômetros de Brasília, a residência é dividida com Liana, colega de profissão e companheira de Rui há 43 anos. Embalada no interior por música clássica e no exterior pelo doce e potente canto da ave garrinchão-de-barriga-vermelha, a morada abriga o acervo de valor imensurável do mestre das lentes, um homem simples e memorável, como o lar que ergueu para si. 

O fotógrafo lembra do início e do fim da vida profissional com verdadeira modéstia. Sozinho, mudou-se para a nova capital federal em 1959, antes da inauguração, a fim de finalizar o Ensino Médio e lançar-se no mercado de trabalho. “O clima em Brasília, embora atrapalhado pela névoa de poeira, era de absoluta esperança. O novo estava emergindo, e todos queríamos fazer parte dele”, resgata na memória. 

O primeiro emprego foi o de office boy na Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital. Anos mais tarde, após casar-se com uma oficial de chancelaria e ter o primeiro de seus quatro filhos, Faquini embarcou rumo ao Irã para acompanhar a família. Com muito tempo em mãos, passou a ajudar na embaixada brasileira.

Ao recepcionar Otto Stupakoff, um generoso fotógrafo paulistano de passagem pelo país, teve seu amor pelas câmeras despertado. “Mas só passei a realmente estudar fotografia em 1969, no Japão, onde morei após o Oriente Médio”, rememora. Em solo asiático, terra da Canon e da Nikon, o goiano profissionalizou o hobby e deu início a uma frutífera jornada de cinquenta anos.  

 

Meio século

O brasiliense por escolha atuou em dois eixos de interesse, o publicitário e o documental. Orgulha-se de ter feito parte dos tempos áureos da fotografia, em que grandes estúdios dominavam megalópoles como Tóquio, Londres, Zurique e Milão, as quatro desbravadas por ele a trabalho. As andanças edificantes no exterior eram facilitadas pelo passaporte diplomático que detinha. “Passei a fotografar devido ao meu interesse por histórias e legados. Documentar é preciso”, acredita. 

Não à toa, tem 18 livros publicados. O de maior alcance, o Moradas do Brasil, traz pitorescas casas espalhadas pelo País, também percorrido por ele à exaustão. O Menire, por outro lado, apresenta o trabalho de Rui como o primeiro fotógrafo a clicar as mulheres de um isolado povo indígena na Amazônia. 

Graças aos esforços voltados ao registro da capital federal, cidade que testemunhou o nascer, foi condecorado com o título de Cidadão Honorário em 2002. A Epopeia de Brasília é outro livro recheado com imagens dele, que sempre brincou com o equilíbrio da luz, bem como foi apaixonado por arquitetura e ecologia. 

Conforme ganhou notoriedade, também recebeu convites inesperados, como o da China para ser o único brasileiro a colaborar para a criação de livro que lançou a candidatura de Pequim aos Jogos Olímpicos de Verão. O ano era 2000, e o país perdeu por apenas dois votos para Sydney, Austrália. 

 

Advento dos smartphones

Além de lutar pela valorização do Brasil pelo próprio povo, Rui Faquini lamenta o fato de a fotografia raiz ter perdido espaço em tempos de smartphones. “Demorei 50 anos para aprender o que sei, e o meu trabalho não tem mais o mesmo valor de antes. Na era dos Iphones, qualquer um se mete com a mágica da fotografia, mas poucos entendem o processo. Fotografar é mais do que apertar um botão imaginário na tela”, sublima o mestre, que guarda a sete chaves seus filmes e máquinas analógicas.

Perigos para o Cerrado

O boom turístico observado na Chapada dos Veadeiros, oásis do estado de Goiás que caiu nas graças de celebridades e jet setters, é visto com bons olhos pelo protetor do bioma. “O turismo não traz grandes riscos ao Cerrado”, tranquiliza o especialista. 

Segundo ele, o que ameaça de fato a região é a monocultura, o desmatamento e as queimadas, boa parte desencadeada em razão do descaso. “O Cerrado nunca foi valorizado. Juscelino Kubitschek, quando pediu a Vinícius de Moraes que criasse a música Sinfonia do Alvorada em homenagem a Brasília, já descreveu a região como ‘o ermo’. Antes da nova capital emergir, porém, já existia algo, que merecia mais cuidado e respeito”, opina.

Ao contrário de muitos moradores do Planalto Central, Faquini não teme as matas altas de galhos retorcidos. “Sou familiarizado com os bichos, sei como encontrar água. Estudo, preservo, fotografo e vivo o Cerrado intensamente”, vibra. 

 

Fim de uma era 

Rui declara-se aposentado. Depois de cinco décadas dedicadas à fotografia, o goiano dá sua missão por cumprida. Agora, passa os dias em seu ateliê de marcenaria em casa, permeada por móveis desenvolvidos por ele. 

Já com dificuldades de locomoção devido aos anos bem vividos, diz que só voltaria a fotografar se o trabalho lhe tocasse muito o coração. “E se eu tivesse um ajudante, claro”, acrescenta. O ofício de fotógrafo, como bem lembra, exige bastante fisicamente dos profissionais. Encolher e esticar o corpo são atos múltiplas vezes necessários. 

Vida documentada

As novas, mas talvez mais significantes imagens para Faquini, as dos netos, têm lugar de destaque na casa do avô. Logo na entrada, à esquerda da porta principal, estão expostas fotos das crianças em moldura despretensiosa. Carregada de afeto, a peça evidencia que a eternização de momentos (às vezes muito efêmeros, como os da infância) tem morada e lugar especial no lar, sinônimo de calmaria. 

Atualmente, na companhia dos familiares e dos animais (a residência abriga também gatos, cachorros, micos, abelhas e outros milhares de bichos), Rui foca em aproveitar a tranquilidade que criou para si — e revisita seu legado, construído com tanto esmero e amor ao Brasil, sobretudo à região central do País, com a leveza de quem não fugiu à luta.

www.faquini.com

 

*Matéria escrita por Bruna Nardelli para a Revista GPS 37