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Uma noite com Ronaldo Bôscoli e outras histórias

Antonio Veronese conta algumas das histórias que viveu com o compositor e produtor musical
Foto: Reprodução

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Foi, se não me engano, no início de 1987. Morávamos eu, mulher e quatro filhos, na rua Prudente de Moraes, em Ipanema, quase esquina com a Garcia D’Ávila. Um dia convidei Ronaldo Bôscoli, com quem eu tinha uma agradabilíssima relação, para vir papear à noite em minha casa. Ele chegou acompanhado da sua adorável Heloísa, da filha Marina, e do radialista Paulo Marinho, um gentleman!

A conversa começou com uma provocação: disse-lhe que de ‘esquerdo’ ele não tinha nada. Poucos sabem que ele se chamava Ronaldo Fernando Esquerdo Bôscoli. Ele retrucou no pulo: Antonio, nós viemos aqui pra beber ou pra conversar? Eu, que só tomo vinho, abri imediatamente uma garrafa de bom scotch que depositei ao lado da sua poltrona, à sua mercê.

Papo vai, papo vem e a noite avança deliciosamente, sob a regência dos eflúvios etílicos e da doce brisa de Ipanema. A inteligência de Ronaldo era uma coisa extraordinária. Um ‘homo universalis’! Falava de tudo, sacava tudo com um humor deliciosamente cáustico! Uma elegância inglesa numa alma profundamente carioca neste que foi um dos pilares da nova bossa que atravessou, como disse, todas as fronteiras do planeta. O barquinho vai, a tardinha cai…

Jornalista esportivo em sua juventude, a música, no entanto, estava nos glóbulos vermelhos deste sobrinho bisneto de Chiquinha Gonzaga. Ainda por cima, um capricho dos deuses fez de Vinícius de Moraes seu cunhado e, a partir daí, tudo se acelerou ou, como diria Tônia Carrero, “seja o que Deus quiser”.

De voz grave e sempre muito bem vestido, Ronaldo era o charme em pessoa e colecionou mulheres absolutamente extraordinárias como Elis Regina, Nara Leão, Maysa, Mila Nogueira… até que encontrou Heloísa de Souza Paiva, sua musa derradeira.

Compositor refinado, nome incontornável na enciclopédia da música extremamente refinada do Brasil das décadas de 50/60, sua parceria com o mestre da melodia Carlos Lyra produziu pérolas como ‘Saudade fez um Samba em seu Lugar’ e ‘Lobo Bobo’, esta última uma deliciosa ironia autobiográfica do grande ‘coureur de jupons’ que foi Ronaldo.

Com Roberto Menescal ele iria ainda mais enriquecer a nova bossa carioquíssima, com canções inesquecíveis como ‘O Barquinho’, ‘Ah! Se Eu Pudesse’, ‘Canção Que Morre no Ar’, ‘Nós e o Mar’ e ‘Rio’, esta última um retrato definitivo da cidade maravilhosa de então.

Mas, voltemos à fatídica noite em meu apartamento na Prudente de Moraes. A conversa rolava solta quando, por volta da meia-noite, Ronaldo pergunta a Paulo Marinho, que à época trabalhava na Radio Globo:

Paulinho, quem está no ar agora lá na Globo?

Não me lembro quem era, mas uma vez identificado o locutor de plantão, Bôscoli diz:

Paulinho, liga pra ele, diz que sou eu e que quero falar com ele ao vivo, agora, na rádio.

O que se passou em seguida ninguém poderia prever. O locutor, no ar, manifesta a seus ouvintes a alegria de poder falar com Ronaldo, ao vivo, pela Rádio Globo.

Locutor:
Meus amigos da Rádio Globo, eu estou aqui ao vivo com o grande Ronaldo Bôscoli!! Ronaldo, como vai você? Que prazer tê-lo aqui ao vivo conosco na Rádio Globo.

Ronaldo:
O prazer é meu, eu estou ligando porque está acontecendo uma coisa muito importante agora, aqui no Rio de Janeiro, e eu gostaria de anunciar em primeira mão aos seus ouvintes aí da Globo.

Locutor:
Mesmo? Que maravilha Ronaldo, muito obrigado por dar preferência ao nosso programa. Pode falar, Ronaldo, estamos à sua escuta.

Ronaldo:
Bem estamos aqui na casa de Antonio Veronese, reunidos com a nata da nata da cultura nacional.

Locutor:
É mesmo Ronaldo? E quem está aí com vocês?

E Ronaldo dispara:
Bem, eu vou tentar não me esquecer de ninguém, mas estão aqui agora Oscar Niemeyer, Jorge Amado, João Gilberto, Chico Buarque, Tom Jobim, Carlos Drummond de Andrade, Dorival Caymmi, Ariano Suassuna, Carlinhos Lyra, Roberto Menescal, Ferreira Gullar, Joao Ubaldo…

O locutor, do outro lado da linha, ao vivo, mal podia acreditar no próprio ‘furo’.
Que maravilha, Ronaldo!

E Ronaldo continua:
Deixa ver se eu não me esqueci de ninguém! Ah, também estão aqui Caetano Veloso e Gilberto Gil, Maria Betânia, Elza Soares, Dona Zica, Jamelão, Nelson Sargento, Miele… e seguiu enumerando uma plêiade de luminares da cultura brasileira.

Quando terminou o locutor, atônito, pergunta-lhe:
Mas Ronaldo, o que essa gente toda está fazendo aí na casa do Veronese?

E Ronaldo, sem pender a empáfia, responde:
Estamos discutindo os rumos da cultura nacional. E desligou!

Paulo Marinho, que tem a luxuriosa tez da mãe África, literalmente ficou branco:
Ronaldo, você acaba de me fazer perder o emprego!

Evidentemente, nenhum dos inúmeros citados estava presente nesta noite de verão em meu pequeno apartamento de Ipanema. Foi apenas mais um delicioso chiste do imprevisível Ronaldo. Ao fim da noite, a referida garrafa de scotch estava vazia, mas a verve do mestre continuava intacta!

 

As histórias envolvendo Ronaldo são suficientes para escrever um livro. Ele era capaz de derrubar qualquer roteiro e atear fogo às convenções, com suas tiradas e ironia sofisticadíssimas. Era, por isso mesmo, temido pela turma da música, como no dia em que Tom Jobim estava sendo entrevistado por uma bela jornalista, à ‘table’ da churrascaria Plataforma.

Tom tinha um hábito que os mais íntimos conhecem: quando chegava um jornalista ele imediatamente colocava o panamá na cabeça e acendia um cubano.

– Assim a foto sai no jornal!, dizia ele.

A conversa com a jornalista, panamá na cabeça e charuto iluminado, ia às mil maravilhas até que, de repente, desembarca Ronaldo. Tom, preocupado em não dividir a entrevista e cioso de mantê-lo à distância, sumariamente ignorou sua chegada.

Ronaldo, solenemente descartado, instalou-se em uma mesa no fundo do salão de onde bebia, comia e acompanhava a longa entrevista de Tom. Uma hora após, tendo acabado de comer, e sobretudo de beber, Ronaldo dirige-se à Tom de longe, em voz alta para que todos os presentes pudessem ouvir:

Tom, essa história de ecologia é coisa de viado. Tem é que passar o trator em cima da floresta e fazer lá um monte de shoppings center.

Tom, extremamente contrariado, finge não ouvir, mas Ronaldo continua:
Sabe, Tom, índio gosta mesmo é de passar o dia se masturbando na rede. Tem é que passar o trator!

Desconcertado e sem saber o que fazer, o maestro Brasileiro limitou-se a sorrir encabulado para a bela jornalista. Ronaldo, então, passou diante da mesa de Tom e despediu-se triunfante:
Espero que a entrevista esteja indo bem, Tomzinho.

 

Para terminar e não alongar muito esse artigo, uma última história de Ronaldo, esta a mais preciosa para mim. Em 1994 eu fiz o painel Famine , que Betinho transformou em símbolo da “Campanha Ação da Cidadania contra a Fome”.

Este painel foi exposto na ONU em Nova York e hoje encontra-se na FAO (Food Agricultural Organisation for United Nations), em Roma. Mas, antes de deixar o Brasil, Jô Soares me telefona e pergunta se eu posso levar o painel para seu programa “Jô Onze e Meia”, no SBT, em São Paulo. Diléa Frate, Max Nunes e eu embarcamos no Rio, rumo a São Paulo, com o painel a tiracolo.

Naquela noite, durante todo o programa, o painel que denuncia a indecência da fome no Brasil foi integrado ao cenário do programa, instalado exatamente atrás da mesa de Jô.

Quando voltei ao Rio, no dia seguinte, alguém me telefona dizendo que Ronaldo havia publicado em sua coluna diária no jornal a foto do meu Famine no programa do Jô. Liguei imediatamente para Ronaldo para agradecer e alguém ao telefone me disse que ele não podia atender pois não estava bem. Ronaldo morreu apenas cinco dias após.

Cinco dias apenas antes de partir, o genial Ronaldo lembrou-se do amigo com quem, sete anos atrás, havia se reunido num pequeno apartamento de Ipanema com a nata, da nata, da nata da cultura nacional.