Ao longo da história, poucas práticas foram tão amplamente condenadas quanto a antropofagia. Em todas as culturas, comer carne humana é visto como o zênite da transgressão moral. Mas e se, por um instante, suspendêssemos o juízo moral e analisássemos essa questão sob uma lente vestida pela ciência?
Do ponto de vista histórico, antropológico, sociológico, filosófico, religioso e biológico, o consumo de carne humana apresenta nuances intrigantes que merecem ser exploradas. Além disso, será que, em termos nutricionais, essa prática faria algum sentido?
No universo cinematográfico, poucos personagens encarnam o fascínio e o horror do canibalismo como Hannibal Lecter, o brilhante e perturbador psiquiatra de O Silêncio dos Inocentes (1991). Magistralmente interpretado por Anthony Hopkins, Lecter não é apenas um assassino – ele é um gourmet refinado, um intelectual sagaz e, máxime, um canibal que transcende a brutalidade para transformar a antropofagia em uma arte sofisticada. Seu comportamento nos obriga a questionar: o que torna o canibalismo tão repulsivo?
Seria a violência do ato ou o medo de que, no fundo, ele revele algo primal e inconfessável sobre nós mesmos?
A repulsa que sentimos ao vê-lo saborear um fígado “com um bom Chianti” não se deve apenas ao crime cometido, mas à desconcertante possibilidade de que, em outro contexto, sem o tabu cultural, esse ato poderia ser visto como aceitável. Se Hannibal Lecter não fosse um assassino, mas apenas um homem que escolheu um prato proibido, o enxergaríamos obliquamente?
O canibalismo desmorona o edifício civilizatório, franqueia os impulsos primitivos e institui a selvageria no status pré-histórico. Vamos mergulhar nessa reflexão perturbadora – com elegância, é claro.
Um olhar histórico
A prática do canibalismo não é exclusividade de tempos primitivos. Embora hoje seja um tabu universal, ele já foi um fenômeno culturalmente aceito e até institucionalizado. Segundo o antropólogo William Arens, em The Man-Eating Myth (1979), muitos relatos históricos de canibalismo podem ter sido exagerados por exploradores europeus para justificar a dominação de povos indígenas. No entanto, há evidências arqueológicas e etnográficas sólidas de que algumas culturas realmente o praticavam.
Nos períodos de fome extrema, o canibalismo emerge como uma escolha desesperada. O caso mais famoso é o da expedição Donner (1846-1847), nos Estados Unidos, em que pioneiros presos nas Montanhas Rochosas recorreram à carne de seus companheiros mortos para sobreviver. Episódios semelhantes ocorreram durante o cerco de Leningrado (1941-1944) e até mesmo em acidentes aéreos, como o do voo da Força Aérea Uruguaia 571, incluindo uma equipe de Rugby, nos Andes, em 1972 (Read, Alive, 1974).
Em algumas culturas antigas, o consumo ritual da carne humana era uma forma de conexão com o divino. Entre os astecas, como relatado por Michael Harner (The Ecological Basis for Aztec Sacrifice, 1977), a carne das vítimas sacrificiais era consumida pelos sacerdotes e pela elite como parte de um ritual religioso. A crença era que essa prática garantiria a manutenção da ordem cósmica e a benevolência dos deuses.
Na Polinésia, algumas tribos praticavam o canibalismo ritual como uma forma de assimilação espiritual: ao consumir a carne de um guerreiro morto, acreditava-se que sua força e coragem se remetiam para quem o ingeria.
Esse conceito também existia em algumas tribos da África Ocidental e da Nova Guiné, onde o canibalismo funerário era visto como um modo de honrar os mortos, permitindo que seus espíritos permanecessem na comunidade. Os Fore praticavam o canibalismo funerário, o que levou à disseminação de kuru, uma doença neurodegenerativa, causada por príons – um dos principais argumentos biológicos contra essa prática (Prusiner, Nobel Lecture: Prions, 1997).
Na Idade Média, inimigos derrotados eram ocasionalmente devorados como demonstração de supremacia. Tribos guerreiras na África Ocidental, como os Fang, e povos das Ilhas Fiji consumiam carne humana como forma de humilhação dos vencidos (Sanday, Divine Hunger: Cannibalism as a Cultural System, 1986).
Desde a Revolução Industrial, os avanços tecnológicos permitiram transformar quase qualquer matéria-prima em alimento ultraprocessado, expandindo as fronteiras do que pode ser considerado comestível. Em um cenário de ficção, marcado por uma catástrofe ecológica e uma escassez absoluta de alimentos, essa capacidade poderia, hipoteticamente, levar à criação de produtos alimentícios a partir de fontes insólitas – inclusive, a carne humana. Essa hipótese extrema alcança o limite da razão e dos escrúpulos, servindo mais como um alerta sobre as balizas da tecnologia e da degradação ambiental do que como uma proposta viável para a sobrevivência em massa.
Perspectivas antropológicas e sociológicas
Montaigne, em seu ensaio Des Cannibales (1580), argumenta que os tupinambás do Brasil, ao praticarem o canibalismo ritual, eram menos bárbaros do que os europeus que torturavam prisioneiros por diversão. Rousseau, em Do Contrato Social (1762), discutiu como a moralidade é um constructo cultural, e não uma verdade universal. Se fôssemos criados em uma sociedade onde o canibalismo fosse aceitável, nossa reação seria diferente?
Claude Lévi-Strauss abordava o canibalismo não como um ato puramente brutal, mas como uma prática carregada de simbolismo que evidencia a transformação da natureza em cultura. Em Le Cru et le Cuit, o antropólogo francês destacou a importância dos processos de classificação e dos binários, como o cru e o cozido, para compreender como as sociedades atribuem significado aos rituais alimentares, inclusive à prática do canibalismo. Para Lévi-Strauss, esses rituais revelam uma lógica estrutural subjacente às culturas, que busca transgredir e, ao mesmo tempo, ordenar a natureza, transformando o que seria um ato de violência em um complexo sistema de símbolos e significados.
O sociólogo Marvin Harris, em Good to Eat (1985), argumenta que a rejeição ao canibalismo pode ter menos a ver com ética e mais com fatores ecológicos e adaptativos. Em algumas culturas, sua proibição surgiu devido a riscos de transmissão de doenças.
Pecado ou sacralidade?
A relação da religião com o canibalismo é paradoxal. Se por um lado ele é visto como o ato máximo de profanação, em algumas tradições ele também aparece como um rito de comunhão espiritual. Isso nos leva a uma reflexão profunda: será que é condenado apenas por ser biologicamente perigoso e eticamente repulsivo, ou por que desafia a própria noção de humanidade?
A sacralidade do corpo, presente em praticamente todas as religiões, sugere que o respeito pelo cadáver humano é uma das pedras fundamentais da civilização. O canibalismo rompe essa barreira de maneira radical, e talvez seja por isso que ele sempre foi relegado ao mundo dos mitos, dos demônios e dos pesadelos.
Afinal, para muitas crenças, o corpo não é apenas carne – é um templo, um receptáculo do divino. Comê-lo não seria apenas uma transgressão alimentar, mas uma violação do próprio mistério da existência.
O cristianismo condena explicitamente o canibalismo, associando-o à degradação moral e à punição divina. No Antigo Testamento, há diversas passagens que mencionam o canibalismo como uma maldição que se abateria sobre o povo de Israel em tempos de extrema punição divina:
“Se persistirdes em me afrontar e não quiserdes ouvir-me, aumentarei ainda mais vossa aflição […] comereis a carne de vossos filhos e de vossas filhas.” (Levítico 26:27-29). Textos como Lamentações 4:10 e Deuteronômio 28:53-57 reforçam essa visão de que o canibalismo seria um castigo extremo para aqueles que se afastassem dos desígnios divinos.
Entretanto, há uma curiosa reviravolta no Novo Testamento. Jesus Cristo, ao instituir a Eucaristia, usa uma linguagem que poderia ser interpretada metaforicamente como um “canibalismo simbólico”: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.” (João6:54)
A teologia católica, por meio da doutrina da transubstanciação, sustenta que o pão e o vinho consagrados tornam-se, em essência, o corpo e o sangue de Cristo. Essa ideia foi um grande choque para os romanos pagãos, que acusavam os primeiros cristãos de praticar um canibalismo secreto e ritualístico. Claro, nesse contexto é puramente simbólico, mas a ambiguidade da linguagem alimentou controvérsias ao longo da história.
No hinduísmo e no budismo, que veem a vida como um ciclo de reencarnações ligadas ao karma, o consumo de carne humana é absolutamente impensável. Em algumas tradições hindus extremas, como a dos Aghoris, há relatos de práticas de necrofagia ritual, onde são consumidos restos de cadáveres encontrados no rio Ganges. Os Aghoris acreditam que esse ato os liberta das amarras do mundo material, mas são um grupo extremamente periférico dentro do hinduísmo.
O budismo, por sua vez, promove o vegetarianismo como uma forma de compaixão para com todos os seres vivos. O consumo de carne humana seria um tabu extremo, visto que vai contra o princípio da não violência.
O Alcorão não trata diretamente do canibalismo, mas o Islã, assim como o cristianismo, condena a prática como uma violação da sacralidade do corpo humano. Um versículo frequentemente citado como evidência disso é: “E não comam a carne uns dos outros, pois isso seria como comer a carne de seu próprio irmão morto – e vós o detestaríeis.” (Alcorão 49:12). O Islã também enfatiza o respeito aos corpos dos mortos, proibindo quaisquer formas de mutilação ou profanação de cadáveres. Isso reforça a condenação absoluta ao canibalismo, que seria visto como um ato de extrema desumanidade.
De outra parte, em algumas vertentes do satanismo e do ocultismo, o canibalismo aparece como um ato de desafio à ordem divina. Durante a Idade Média, boatos sobre rituais canibais eram usados para demonizar grupos dissidentes, como os templários e os cátaros. No entanto, na maioria dos casos, essas alegações eram meras construções propagandísticas da Igreja. Rituais envolvendo o consumo de carne humana aparecem em algumas seitas modernas marginais, mas sempre com um caráter transgressor e iconoclasta, nunca como parte de uma tradição religiosa estabelecida.
Biologia, nutrição, sabor e segurança
De acordo com James Cole (Assassine the Calorific Significance of Episodes of Human Cannibalism, 2017), 1 kg de carne humana contém aproximadamente:
– 1300 kcal (semelhante à carne de porco)
– 21g de proteína por 100g (comparável à carne bovina)
– Alto teor de ferro e zinco
No entanto, a nossa carne tem menor valor energético que a de javalis ou bisões, o que a tornaria uma fonte menos eficiente de nutrição em sociedades caçadoras. Exploradores do século XIX e relatos históricos sugerem que tem um sabor semelhante ao da vitela ou porco. William Seabrook, que alegou ter experimentado matéria humana na África, descreveu-a como “ligeiramente mais doce que a bovina” (Jungle Ways, 1931).
A ingestão de carne humana traz sérios riscos. Conforme comentei anteriormente, o kuru, causado por príons, devastou os Fore da Nova Guiné. Além disso, a transmissão de doenças como Creutzfeldt-Jakob pode ocorrer (Prusiner, 1997). O alto teor de ácido úrico na carne humana também pode sobrecarregar os rins.
Hipotéticos prós e contras do canibalismo
Prós:
– Sustentabilidade: resolveria problemas de superpopulação e desperdício de cadáveres de outros animais.
- Disponibilidade: carne sempre acessível, sem necessidade de criação animal. Entretanto, discutível. Afinal, poderiam ocorrer fazendas de pecuária para humanos de corte.
- Menor impacto ambiental: redução na pecuária diminuiria emissões de gases do efeito estufa.
Talvez:
Em teoria, a antropofagia poderia afetar a natalidade humana, mas não de forma eficiente ou sustentável. Para que isso ocorresse como um mecanismo de controle populacional, ele precisaria ser amplamente aceito e sistematicamente praticado.
Em espécies animais, o canibalismo pode ocorrer em contextos específicos, como competição extrema por recursos, mas em sociedades humanas complexas, outros mecanismos, como planejamento familiar e políticas de controle de natalidade, são muito mais dignos e eficazes.
No campo das distopias, a antropofagia poderia ser explorada como uma medida extrema imposta por uma sociedade totalitária ou como consequência de um colapso civilizacional, mas na realidade, não seria uma solução factível ou verossímil à regulação populacional.
Contras:
– Questões éticas e morais: a violação do princípio fundamental de crédito à vida humana.
– Riscos sanitários: altas chances de transmissão de doenças fatais.
– Fome: a fome é uma realidade persistente que aflige milhões ao redor do mundo. De acordo com o relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo de 2024, aproximadamente 733 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2023, representando uma em cada onze pessoas globalmente, e uma em cada cinco no continente africano. Entretanto, a consideração da antropofagia como solução para a fome mundial é uma desproporção que desafia os fundamentos civilizatórios que sustentam as sociedades contemporâneas. Isso violaria princípios essenciais dos direitos humanos, conforme estabelecido na Declaração Universal das Nações Unidas.
– Contrabando de corpos: se a carne humana adquirisse valor econômico, a demanda poderia fomentar um mercado subterrâneo excepcionalmente arriscado, incentivando o contrabando de pessoas para fins de abate e consumo. Organizações criminosas poderiam explorar populações vulneráveis, da mesma forma que ocorre com o tráfico de órgãos. Em regiões de extrema pobreza e instabilidade institucional, onde a fiscalização é falha, esse cenário poderia resultar em sequestros sistemáticos e o agravamento de crises humanitárias.
– Impacto psicológico: poderia causar traumas e desordens sociais irreparáveis.
Entre o instinto e a ética
O canibalismo sempre despertou reflexões profundas sobre ética, moral e natureza humana. É um tema que fascina e aterroriza porque nos obriga a confrontar nossos próprios limites. Biologicamente possível, historicamente documentado e filosoficamente desafiador, ele representa o ponto em que nossa humanidade é colocada à prova.
No entanto, mesmo que houvesse benefícios nutricionais ou ambientais, o tabu religioso e moral em torno da antropofagia se mostra implacável. A sacralidade do corpo, a aversão instintiva e o risco de doenças são barreiras quase inexpugnáveis. A rejeição ao canibalismo aquilata a valorização da vida e a noção de respeito ao corpo humano, mesmo após a morte.
Talvez seja por isso, caros leitores, que, ao longo dos séculos, o canibalismo tenha sido relegado aos domínios do horror e do fantástico – como um espelho sombrio daquilo que poderíamos, mas escolhemos não ser.
E que continuemos assim. Bon appétit!
*Clayton Camargos é sanitarista pós-graduado pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/Fiocruz. Desde 2002, ex-gerente da Central Nacional de Regulação de Alta Complexidade (CNRAC) do Ministério da Saúde. Subsecretário de Planejamento em Saúde (SUPLAN) da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). Consultor técnico para Coordenação-Geral de Fomento à Pesquisa Em Saúde da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde. Coordenador Nacional de Promoção da Saúde (COPROM) da Diretoria de Serviços (DISER) da Fundação de Seguridade Social. Docente das graduações de Medicina, Nutrição e Educação Física, e coordenador dos estágios supervisionados em nutrição clínica e em nutrição esportiva do Departamento de Nutrição, e diretor do curso sequencial de Vigilância Sanitária da Universidade Católica de Brasília (UCB). Atualmente é proprietário da clínica Metafísicos.
CRN-1 2970.