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Pouca gente sabe, mas o secretário Zé Humberto já ajudou a salvar o Plano Real

Ao adotar uma estratégia genial, preços foram preservados e o Brasil evitou mergulhar de novo na hiperinflação

José Humberto Pires de Araújo, secretário de Governo do DF, é conhecido por sua competência e capacidade de liderança. Tive a oportunidade de conhecer essas características pouco depois de chegar a Brasília, em outubro de 1998. Três meses depois, fui designado pelas minhas então chefes Alba Chcacon e Rebeca Scatrut Noblat para ser assessor de imprensa da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Zé Humberto era o presidente recém-eleito e um dos proprietários dos supermercados Planaltão.

 De trato fácil e sorriso amplo, o popular Pezão tinha a seu lado uma equipe de peso, como Paulo Camilo Penna, ex-presidente do Insttituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e atual presidente da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP); Pedro Américo Furtado de Oliveira, hoje diretor do escritório para México e Cuba da Organização Internacional do Trabalho (OIT);  o empresário Francisco Faviero; e, em São Paulo, o experiente diretor-superintendente Tom Erdos, hoje morador da agradabilíssima Cascais, em Portugal. Junto a estas feras, estavam este então novato e a doce Valéria Magalhães, uma assistente e tanto para a equipe.

O Brasil, estabilizado pelo Plano Real, sofreria um baque logo após a posse de Zé Humberto na presidência da Abras. Em janeiro de 1999, o economista Francisco Lopes substituiu Gustavo Franco na presidência do Banco Central e comandou, ao lado da então diretora de Fiscalização Tereza Grossi, a desvalorização do real, com a elevação do teto da cotação do dólar de R$ 1,22 para R$ 1,32.

Hoje, quem lê esse movimento cambial, não consegue avaliar o terremoto que ocorreu na economia – isso sem citar o famoso Banco caso do Marka/ FonteCindam, que levou à condenação de banqueiros, de Tereza e do próprio Chico Lopes. A desvalorização do real fugiu ao controle do BC, que adotou uma política de livre flutuação. E bateu em então inacreditáveis R$ 1,92 no dia 28 daquele terrível janeiro. No dia 1° de fevereiro daquele ano, quando Lopes se demitiu do BC, a divisa estava a R$ 1,96.

Neste período, Zé Humberto lançou um alerta para os supermercadistas do Brasil: o setor corria riscos de ser tragado por uma espiral de aumentos e acabar, como ocorreu na época do Plano Cruzado, como vilão da economia. Para quem não se lembra, 1° de março de 1986, quando lançou uma tentativa de estabilização econômica, o então presidente José Sarney  exortou o brasileiro a ser “um fiscal dos preços” para que o programa tivesse sucesso. E o segmento mais atacado foi o supermercadista, com estabelecimentos fechados por iniciativa popular e uma enxurrada de multas. Na verdade, o problema estava, na maioria das vezes, em produtores que elevavam tabelas sem respeitar o congelamento determinado.

Para evitar essa repetição, mesmo diante de regras econômicas distintas, Zé Humberto organizou uma reunião nacional dos supermercadistas – tarefa que, à época, era impensável, pois alguns dos donos destas redes eram, simplemente, desafetos uns dos outros. Um caso era especialmente sensível e envolvia os donos de uma rede paulista e de uma grande cadeia de supermercados e hipermercados carioca.  Mesmo assim, ele insistiu e sentou todos à mesa, em São Paulo.

Na cabeça de Zé Humberto havia uma estratégia definida, que contou a todos apenas no encontro. A proposta era não comprar nenhum produto que “surfasse” a onda da desvalorização do real para abusar do aumento de preços e evitar impostações desnecessárias.

E mais: informar que os produtos importados estavam mais caros pela desvalorização do real e sinalizar, nas gôndolas eventualmente vazias, o motivo da falta do artigo nacional, em letras garrafais: “Este produto está em falta porque a indústria aumentou o preço com base na desvalorização do real e acima da inflação”

Simples, fantástica e incisiva, a ideia foi comprada por todos. Rivais aliaram-se na mesma estratégia. Ninguém comprou de quem majorou preços acima do normal, nem aceitou preços absurdos de importados. Gôndolas foram sinalizadas. E fizemos uma entrevista coletiva em Brasília, para contar a diretriz. Nela, Zé Humberto foi enfático e detalhou as etapas.

Para se ter uma ideia, a inflação anual de 1998 segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 1,6%.  Poderia voltar às estrelas como nos anos 1980, mas fechou 1999 em 8,94% – patamar alto, mas aceitável.  O setor supermercadista como um todo e Zé Humberto fizeram a sua parte para salvar o Plano Real.

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O então governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, o jornalista Jorge Eduardo e Zé Humberto, na feira da Abras. Foto: Arquivo Pessoal

À época, a Abras realizava, no Riocentro, Rio de Janeiro, sua convenção anual e a feira de expositores. Presidentes da República não eram frequentadores das aberturas. Mas, agradecido pelo movimento do segmento, o então presidente Fernando Henrique Cardoso  fez questão não apenas de receber Zé Humberto e os principais players do setor no Palácio do Planalto, mas perguntou o que eles queriam. Pezão foi o porta-voz: “que o senhor nos prestigie este ano na Abras”.

Fernando Henrique foi, andou no carrinho de golfe pilotado por Zé Humberto com os dirigentes supermercadistas e discursou para todos. Prestigiou quem o apoiou. Só não soube o trabalho que Pezão teve para montar quem iria em qual posição nos carrinhos da comitiva. Mas isso é outra história. 

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