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Maurício Duarte, o designer indígena que conquistou as passarelas da SPFW

Maurício foge aos estereótipos e traz à tona a cultura ancestral indígena
Daiara Tukano, Maurício Duarte e Célia Xakriabá (Fotos: Rayra Paiva)
Daiara Tukano, Maurício Duarte e Célia Xakriabá (Fotos: Rayra Paiva)

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O Museu Nacional de Brasília tornou-se palco de uma celebração única do artesanato e da moda, nesta quarta-feira, 11, com a presença de um jovem estilista que busca redefinir o conceito de moda a partir do indígena que resgata as raízes brasileiras de forma criativa e atual. Em uma entrevista concedida exclusivamente ao GPS, Maurício Duarte compartilhou sua jornada desde a infância até o universo da moda, destacando a importância de valorizar as manualidades e sua cultura de origem.

Desde muito jovem, ele já se envolvia em eventos de artesanato, na influência e companhia de sua mãe. Mesmo sem ser um indígena aldeado, o contato precoce com o artesanato serviu como a semente de sua paixão e o levou a estar presente no universo da moda, que hoje tem aberto portas para as culturas originárias brasileiras.

Maurício ressaltou como a valorização do artesanato e a colaboração com artesãs trouxeram uma nova perspectiva e respeito para a sua forma de expressão nas passarelas.

“Eu acredito que esse reencontro [de Maurício com o artesanato] vem com uma valorização muito maior do artesanato e a junção que foi feita pra produzir essa coleção com as artesãs já tem um outro olhar, um outro valor e um outro respeito”, iniciou. “Uma das coisas que mais me impactava na época das feiras de artesanato é que as pessoas não entendiam o valor que tinha, e também não entendiam o trabalho que dava para produzir as peças. Hoje, dentro do meu espaço na moda, eu consigo mostrar que não é rápido, não é fácil, que tem toda uma inteligência criativa para desenvolver as peças e que isso tem um novo valor”, destacou.

No Museu Nacional, além de apresentar as peças que impressionaram e impactaram na SPFW, com a coleção “Trama”, Maurício contribuiu para a divulgação e o pré-lançamento do 16º Salão do Artesanato — aberto ao público a partir de novembro, no Pátio Brasil. 

Ali, então, foi um momento de recordação. Maurício relembrou de suas experiências em feiras de artesanato em Manaus, onde as estruturas eram limitadas e contrastou com o cenário atual, onde o evento acontece em um dos principais museus da capital federal, ao lado de outros artistas indígenas.

“Agora, estamos dentro do museu, com toda uma estrutura acontecendo ao lado de outros artistas indígenas. Antes não tínhamos referências desses povos em outras áreas. Acho, então, que são muitas faces alteradas e modificadas”, refletiu sobre a inclusão da cultura ancestral na contemporaneidade brasileira em diversas áreas de atuação, como na moda.

Longe de estereótipos

Maurício entrou na moda cedo, afinal ainda está com 27 anos, e uma ideia era constante em sua mente desde o início: preservar a memória das origens brasileiras sem, no entanto, cair no estereótipo. O sentido de sua criatividade foi todo para essas criações que envolvem passado, presente e futuro da cultura ancestral. O estilista também explicou que seu trabalho se concentra em incorporar elementos tradicionais de uma maneira contemporânea.

Ele destacou, ainda, a importância de lembrar que o Brasil tem sangue indígena em suas raízes e que muitos aspectos da cultura brasileira têm influência dessa ancestralidade. Enfatizou também a necessidade de mostrar que essa cultura não é apenas distante ou rústica, mas também está presente no contexto urbano.

“Estou falando de uma sabedoria ancestral, mas ela não está ali como uma receita de um chá. Ela tá ali como uma cor que traz uma unidade para o meu trabalho. Acho que quando conseguimos entender que nós, o Brasil, temos sangue indígena, que todas as raízes, tudo o que a gente fala, as nossas palavras, a língua portuguesa, ela vem da língua indígena. Ela tem essa fusão do português de Portugal com o Tupi, e as pessoas não sabem desse significado”, explica.

De Manaus para São Paulo e para o mundo

A jornada do estilista no mundo da moda, desde a customização de peças em Manaus até a sua conquista de uma bolsa de graduação em São Paulo, não foi nada fácil. Desde pequeno, Maurício fugiu aos estereótipos. As barreiras que superou em seu berço de nascimento até o sucesso que tem feito em sua área profissional passou não só por ser indígena em um Brasil de preconceitos, como por ser um homem gay em uma comunidade com fortes raízes homofóbicas.

Em sua rede de superações, no entanto, alguns alívios vieram como benção para conquistar sonhos e caminhar em direção ao futuro. A pintura foi uma dessas oportunidades, que além de ser parte de seu processo criativo, também foi o meio pelo qual encontrou forças financeiras para pagar a primeira faculdade e, assim, declarar ao mundo a vitória da igualdade. O garoto vendia camisetas na paulista e dali tornou-se um dos designers de moda mais bem conceituados e bem quistos no mundo da moda. Inclusive, pela Forbes, ele é considerado um dos seis jovens representantes da moda no Brasil.

“Se a gente não entende que esses espaços são alcançáveis, são possíveis, a gente nunca fura essas bolhas e nunca mostra a nossa vida real, a nossa vivência real. Muitas pessoas querem falar do Amazonas, querem salvar o Amazonas, mas elas não conseguem entender que, para além da Amazônia, existem as pessoas viventes daquele espaço”, conclui.

Ancestralidade e Modernidade

Sobre suas preferências na moda, o estilista compartilhou seu amor por todos os processos envolvidos na criação, especialmente a moulage, que envolve moldar o tecido no manequim antes de ser vestido. Ele também destacou a importância de peças como a saia feita de arumã, que simboliza a conexão entre ancestralidade e modernidade.

“Na coleção ‘Tramas’ tem uma coisa que me representa muito: a saia feita de arumã. Ela foi feita em São Gabriel da Cachoeira e demorou três dias para chegar em Manaus e, ainda, precisou ser transportada de Manaus para São Paulo. Quando a gente foi desenvolver ela, o artesão, o seu José Curi Paco, falou assim: ‘Mas o que ela vai fazer com isso? Como ela vai sentar?’ Eu falei: ‘Não vai sentar'”, relembrou.

“Esse é o conceito que vamos mostrar para as pessoas, que a nossa tecnologia ancestral da construção dessa historia, ela tem resistência e pode ser adaptada a uma casa e a um corpo, que é exatamente o que acontece com a saia”, finaliza.

 
 
 
 
 
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