A Festa Internacional da Palavra chega à sua segunda edição em 2025, com programação gratuita em Itaúnas, Espírito Santo, entre os dias 21 e 24 de maio. O evento reúne escritores, poetas e artistas para discutir literatura, oralidade e identidade cultural, com foco na valorização de narrativas negras, indígenas e quilombolas. Além das mesas de conversa, a programação inclui performances artísticas e atividades voltadas à formação de novos leitores.
O festival é idealizado pela atriz, cantora e escritora Elisa Lucinda, que desde a infância, sempre teve apreço pela palavra, sendo assim quase impossível seguir um caminho profissional que não tivesse haver com arte. “Cresci em uma casa onde a palavra tinha poder. Meu pai era apaixonado pela etimologia, pelo significado profundo das palavras, e minha mãe, uma soprano talentosa, me envolvia com a música desde o ventre. Essa vivência fez com que a literatura e a oralidade se tornassem parte essencial da minha identidade”, disse Elisa em entrevista ao GPS|Brasília.
A criação da Festa Internacional da Palavra tem uma história inusitada e pessoal para Elisa. “A criação deste festival tem duas histórias. A primeira, eu estava vivendo uma dor de amor longe, com todos os ingredientes que a gente não”, conta a poetista. Durante esse momento turbulento, seu romance, com um também escritor, sugeriu que ela organizasse uma festa literária em Itaúnas, um lugar que ele descrevia como “um paraíso” com deserto, mar, duna e rio.
“Eu fiquei doida, né? Imediatamente pensei: por que não? E olhei para Itaúnas com esse olhar e pensei: ‘Meu Deus, o que que para mim tem que Itaúnas não tem?'” reflete Elisa. Embora o relacionamento não tenha dado certo, a ideia da festa permaneceu, e assim nasceu o evento que, na sua segunda edição, continua a celebrar a literatura e a cultura de forma transformadora e imersiva.
“A literatura é invisível até que a gente faça uma festa só para ela. Quando promovemos um evento literário, acendemos uma luz sobre a palavra escrita, que muitas vezes passa despercebida”, afirmou a escritora, destacando a importância da celebração da leitura. Durante quatro dias, escritores, poetas, artistas, educadores e leitores participam de debates, oficinas criativas, lançamentos de livros e apresentações musicais. “Tudo começa na escrita. Mesmo grandes sucessos do cinema e do streaming, como Game of Thrones e Harry Potter, nasceram na literatura. Mas, muitas vezes, esquecemos disso”, pontuou Lucinda.
Além de incentivar a formação de leitores críticos, o evento amplia o acesso à cultura para além dos grandes centros urbanos. “Não podemos reduzir o Brasil a Rio-São Paulo e ao Sudeste. Quando levamos a festa para o interior, garantimos que pessoas que moram em pequenas cidades também possam ter contato direto com grandes escritores e artistas”, defendeu. Para ela, essa descentralização é fundamental para fortalecer a cultura e a economia criativa. “Minha filha viu um escritor ao vivo, e isso muda a percepção sobre o valor da literatura. É uma consideração para quem quer criar seus filhos em uma cidade menor sem abrir mão do acesso à arte e ao conhecimento”, compartilhou.
O evento tem curadoria da escritora e dramaturga Guiomar de Grammont e da pesquisadora Lívia Corbellari. Nesta edição, a Festa presta homenagem a dois nomes fundamentais da literatura e da luta pelos direitos culturais no Brasil: Nêgo Bispo e Bernadette Lyra. Antonio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, foi filósofo, poeta, escritor e líder quilombola, deixando um legado de resistência e pensamento crítico sobre identidade, território e ancestralidade. Já Bernadette Lyra, uma das autoras mais influentes do Espírito Santo, tem uma obra marcada pela ficção e pela narrativa histórica, contribuindo significativamente para a literatura brasileira.
A programação literária contará com nomes de destaque da literatura nacional e internacional, como a escritora, roteirista e ativista social cubana Teresa Cárdenas. O evento também receberá escritores e poetas como Kiusam de Oliveira, Estevão Ribeiro, Marília Carreiro, Jean Wyllys, Ediphôn Souza, Livia Corbellari, Saulo Ribeiro, Selma Dealdina Mbaye, Elisa Lucinda, Itamar Vieira Junior, Arquimino dos Santos, Ingrid Carrafa, Eliana Alves Cruz, Bernadette Lyra, Suely Bispo, Guiomar de Grammont e Katia Bobbio.
No campo do pensamento e ativismo, o evento trará nomes como Ailton Krenak, Yakui Tupinambá, Renato Nogueira, Joana Maria e Marta Tristão, que debaterão temas ligados à identidade, ancestralidade e resistência cultural. Também estarão presentes o secretário de Formação Cultural, Livro e Leitura do Ministério da Cultura, Fabiano Piúba, a deputada estadual Camila Valadão, o professor e slammer João Martins, além de artistas locais, como o dançarino e poeta Marceu Rosário.
Música também é poesia
A música será um dos elementos centrais da 2ª Festa Internacional da Palavra, criando uma fusão única entre sons e palavras que promete enriquecer a experiência cultural do evento. Com a presença confirmada de artistas como a cantora e compositora Sandra Sá, a cantora Bia Ferreira e o gaitista Jeferson Gonçalves, o evento reforça a conexão entre a literatura e a música como formas complementares de expressão artística. Para Elisa Lucinda, idealizadora da festa, essa integração é fundamental para a proposta do evento.
“A música também é uma das asas da palavra. Ela nos traz versos que talvez nunca falássemos ou conhecêssemos, e o evento é um convite para essa viagem literária e musical“, reflete a idealizadora. Ao lado de grandes nomes da literatura, a programação musical celebra a pluralidade de vozes e ressignifica a importância da oralidade, reafirmando a festa como um espaço de resistência e transformação cultural, onde diferentes formas de arte se entrelaçam para promover um diálogo entre gerações e tradições.
Impacto na comunidade local
A Festa Literária de Itaúnas surge como um espaço de encontro entre passado e futuro, celebrando a oralidade das comunidades quilombolas e caiçaras. Localizada em Conceição da Barra, a cidade une memória e renovação, criando um ambiente único para a valorização das tradições culturais locais e o fortalecimento da literatura como força transformadora.
Com um impacto direto na economia local, a Festa Literária movimenta diversos setores da cidade. Produtos típicos como cachaças e lembrancinhas são vendidos no evento, além de um livro especialmente lançado para a ocasião, Diário do Vento. “A proposta é transformar Itaúnas em um centro de intercâmbio cultural, onde textos, poemas e outras produções literárias se conectam com a identidade da região”, comenta a idealizadora do evento.
A festa também oferece uma oportunidade única para o público, especialmente as crianças, de se aproximarem dos autores de livros que estão lendo, criando um vínculo entre o escritor e o leitor. A curadoria do evento é voltada para a inclusão, com a participação de autores negros, indígenas e quilombolas, abordando temas como racismo, feminismo e homofobia.
O evento proporciona uma experiência que vai além da literatura, com apresentações musicais e manifestações culturais como o Forró e o Tico e Reis. A idealizadora da festa visa consolidar suas raízes em Itaúnas, ampliando, com o tempo, sua presença no estado.