Há alguns dias, estive na Universidade Católica de Brasília para ministrar uma Aula Magna aos alunos da graduação em Arquitetura e Urbanismo, tanto calouros quanto veteranos. Foi uma grande alegria retornar ao ambiente acadêmico, sentir a energia e o entusiasmo de quem está dando os primeiros passos na profissão. No entanto, isso gera uma certa angústia, pois, em tempos de desvalorização geral da produção intelectual e artística, entendi o tamanho do desafio de transmitir uma mensagem inspiradora para aqueles que iniciam uma carreira ao mesmo tempo fascinante e exigente.
A Arquitetura é uma profissão de imenso impacto e significado, mas demanda dedicação, resiliência e um equilíbrio constante entre criatividade e rigor técnico.
Ao refletir sobre nossa profissão, nos deparamos com uma dualidade marcante: de um lado, o discurso romântico e poético, que enaltece a criatividade, a sensibilidade e a interpretação subjetiva dos desejos do outro; do outro, a realidade concreta de uma profissão que exige conhecimento técnico, domínio de engenharia, cálculos estruturais, mecânica, cronogramas e orçamentos. É a coexistência entre a poesia e a precisão, entre a leveza da inspiração e o peso da matéria. Em essência, é um olhar sensível sobre a solidez da obra — uma pena que dança sobre o concreto.
Me lembrei de uma palestra que vi, há alguns anos, do Marc Kushner. Ele é um arquiteto, empresário e autor americano. Foi sócio do escritório de arquitetura Hollwich Kushner, com sede em Nova York, e cofundou o portal Architizer, um banco de dados de obras, projetos e produtos arquitetônicos, muito utilizado e prestigiado.
Ele dizia que a arquitetura funciona como um pêndulo. Na teoria, nossa profissão oscila entre dois polos fundamentais: de um lado, a inovação, impulsionada pelo avanço das tecnologias, das técnicas construtivas e das novas formas de habitação; do outro, a força dos símbolos, que existem inconscientemente como elementos que são familiares a todos os indivíduos, criando uma memória coletiva.
Essa imagem do pêndulo ilustra perfeitamente a dualidade intrínseca à Arquitetura. Assim como a profissão oscila entre inovação e memória, também alternamos entre a liberdade criativa e a exatidão técnica. Estamos em permanente processo de aprendizado, acompanhando a evolução dos materiais, assimilando novas ferramentas, explorando o impacto da inteligência artificial no design e compreendendo como as tecnologias transformam nossa forma de projetar. As técnicas construtivas avançam, tornando-se mais ágeis e acessíveis, e nos adaptamos a essa dinâmica incessante.
No entanto, em meio a essa busca por inovação, muitas vezes percebemos que não se trata apenas de criar espaços ou solucionar questões de ocupação e moradia, mas também de resgatar memórias, construir espaços de afetos e estabelecer conexões que atravessam gerações. Arquitetura não é apenas um exercício de imaginação nem uma simples equação construtiva – é a fusão entre arte e ciência, sonho e realidade, leveza e solidez.
Volta e meia, acontece uma ruptura. Uma ruptura que é tão marcante que muda a maneira com a qual a Arquitetura se relaciona com a sociedade. Um acontecimento deste tipo aconteceu em 1997, quando foi inaugurado o Museu Guggenheim em Bilbao, projetado por Frank Gehry. Essa obra transformou não apenas a cidade, mas a própria percepção global sobre alguns dos significados da Arquitetura –sobre solidez e a leveza, por exemplo. O crítico Paul Goldberger descreveu o evento como um raro momento de “unanimidade entre arquitetos, especialistas e o público em geral”. O New York Times chamou o projeto de “milagre”, e o impacto na economia local foi notável: o turismo em Bilbao aumentou 2.500% nos anos seguintes à abertura do museu, o meio ambiente urbano se modificou, o investimento em recursos humanos e inovações aumentou. A partir dali cidades ao redor do mundo passaram a buscar suas próprias versões do “efeito Bilbao”: Los Angeles, Seattle, Chicago, NY, Cleveland. Frank Gehry virou um “starchitect”, um ídolo do mundo da Arquitetura, autor de projetos icônicos e muito visíveis dentro de qualquer contexto urbano, uma personalidade pop universal.
Isso explica muito sobre o resultado da inovação da Arquitetura em relação as possibilidades dos avanços tecnológicos. O uso do software CATIA, originalmente desenvolvido para a indústria aeroespacial, foi um divisor de águas na materialização do Guggenheim. Com essa tecnologia, foi possível criar, modelar e fabricar cada elemento da estrutura com extrema precisão, garantindo que suas formas escultóricas, compostas por painéis de titânio curvados, se encaixassem perfeitamente. Essa inovação não apenas expandiu os limites formais da nossa profissão, como também otimizou processos construtivos, tornando viáveis soluções antes consideradas inviáveis devido a altos custos e grandes dificuldades técnicas.
No entanto, existe o outro lado do pêndulo – o lado mais difícil de explicar por que é o lado mais sensível, subjetivo, delicado. Se, por um lado, a Arquitetura se reinventa constantemente, por outro, há uma força que nos traz de volta à tradição, ao resgate de técnicas ancestrais e à valorização da identidade cultural de cada local. Em meio à obsessão pela inovação, cresce o reconhecimento de que a Arquitetura não pode ser apenas um espetáculo midiático ou um exercício sobre a flexibilidade material, sobre a forma em si. O resgate de materiais naturais, como a terra crua e a madeira certificada, a valorização da construção vernacular e a busca por espaços que dialoguem com a escala humana mostram que a tradição, o afeto com a cultura local e a memória coletiva são e sempre foram fundamentais.
Um exemplo marcante é o Centro de Cultura e Congressos de Ouagadougou, em Burkina Faso, projetado pelo arquiteto Francis Kéré.
Inspirado nas técnicas de construção vernacular africanas, o edifício utiliza barro compactado e estratégias passivas de ventilação para garantir conforto térmico, sem depender de tecnologia de climatização artificial. Ao resgatar métodos ancestrais e adaptá-los à contemporaneidade, Kéré demonstra que a riqueza do passado, a força dos materiais naturais e a necessidade de manter vivas as conexões emocionais e culturais com o ambiente construído representam um outro tipo de inovação – que surge a partir dos fortes laços da comunidade, construídos durante anos e anos, dentro de uma tradição característica, sólida, tradicional – e muito refinada.
Dentro deste contexto, entendemos que Arquitetura não é apenas resposta às necessidades básicas, mas também um meio de expressar desejos, sonhos e identidade. Mesmo a mais humilde das moradias carrega consigo uma história, revelando a essência de seus habitantes. Elementos como luz, transparência e proporção não apenas definem a estética de um espaço, mas moldam a forma como ele é percebido e vivido. Mais do que um exercício individual, a Arquitetura é uma construção coletiva, um reflexo da sociedade e de seus valores, que se materializam nos ambientes que habitamos.
Por fim, é impossível falar de arquitetura sem abordar a questão da beleza. Embora fugaz, a beleza não é uma ideia frívola. Em diversas línguas, como no grego antigo, “kalos” (belo) era frequentemente associado a “agathos” (bom), indicando que a beleza também pode ser um valor ético e social – que impulsiona algo ou alguém a um patamar melhor, mais avançado, mais evoluído. A harmonia entre espaços públicos bem planejados, edificações inspiradoras, bonitas, arrumadas e paisagens integradas e harmoniosas cria um ambiente que não apenas acolhe, mas também inspira e conecta as pessoas.
A Arquitetura, portanto, vai muito além da construção de espaços físicos – ela é uma manifestação da cultura, da identidade e das aspirações de uma sociedade. Oscilando entre inovação e tradição, entre o avanço tecnológico e a memória coletiva, ela nos desafia a encontrar um equilíbrio entre funcionalidade e sensibilidade, entre técnica e poesia. Uma Arquitetura verdadeiramente significativa não é aquela que apenas se coloca no espaço urbano, mas a que dialoga com ele, tornando-se parte da identidade e da experiência humana.
Para os futuros Arquitetos, compreender essa dualidade é essencial, pois seu trabalho não é apenas projetar edifícios, mas criar lugares que dão forma às histórias de vida das pessoas – cenários onde se desenrolam momentos de amor e despedida, de alegria e melancolia, de conquistas e desafios. Cada linha traçada, cada plano, volume, espaço, cada feixe de luz e de sombra, tem o poder de estimular interações, provocar emoções e construir memórias.
Esse é o nosso ofício, e essa é a nossa responsabilidade.