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Artigo: ‘O livro talvez seja a única armadura que nos resta’

Toda prateleira de livros — da sua casa, da livraria pomposa da esquina ou da biblioteca municipal que cai aos pedaços — é sustentada por vigas invisíveis pertencentes a uma estrutura econômica. A metáfora, ainda que simplória, faz recordar o conceito de materialismo histórico, que encara a sociedade como um edifício erguido sobre uma infraestrutura composta pelas relações de produção.

Se o cotidiano é terreno fértil para a ficção, permita-me, antes de mais nada, desenvolver uma breve narrativa. Prometo voltar à prateleira em breve.

Foto: Unsplash

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Uma empregada doméstica, analfabeta funcional e mãe solo, sai às 4 da manhã de casa e enfrenta quase duas horas de trânsito, em um coletivo lotado, até o trabalho. No fim da tarde, faz percurso inverso, com duração estendida devido ao horário do rush. É assim todo dia útil, o mês inteiro. A remuneração, de um salário-mínimo, é distribuída para pagar o aluguel, colocar a comida dos cinco filhos na mesa, quitar a água e a luz. A conta não fecha. Por isso, faz uns bicos no fim de semana na tentativa de fechar o mês no azul. Não sobra um trocado para mais nada.

Erro ao falar de ficção quando narro realidade.

Se o brasileiro lê pouco é porque, antes de mais nada, precisa sobreviver.

Carentes historicamente de políticas públicas que ampliam o acesso ao livro, não tomamos gosto pela leitura, não nos familiarizamos com nossos autores, não construímos uma cultura de valorização de escritos que independe de classe social, mas é ainda mais gritante entre aqueles que pouco têm. Muitos nem sequer sabem ler — ainda que a educação seja inerente à própria cidadania. Quem tem sorte de ser alfabetizado pode ter enfrentado uma escola defasada, longe de ser espaço de garantia de inclusão.

A avaliação das habilidades de leitura é um aspecto fundamental para compreender o desenvolvimento educacional de um país. Em 2021, estudantes brasileiros do 4º ano do ensino fundamental — de escolas públicas e privadas — participaram do PIRLS, um estudo internacional de progresso em leitura. O objetivo era analisar tendências de compreensão leitora, além de coletar informações sobre os contextos de aprendizagem. O resultado, que saiu no início de 2023, é alarmante: ocupamos o 39º lugar em um ranking com 43 países. Os dados individuais ainda revelaram um dos maiores índices mundiais de desigualdade entre os estudantes. Ou seja, a renda e a posição socioeconômica têm grande influência sobre a capacidade de leitura e aprendizado dos brasileiros.

Apesar de um cenário tão triste, continuo acreditando que as tais prateleiras carregam o peso — e os segredos — da força motriz das grandes transformações.

O livro talvez seja a única armadura que nos resta.

 

Foto: Cortesia

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*Lella Malta: escritora, cientista social e especialista em Estado, Governo e Políticas Públicas.

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