Pela primeira vez desde 2007, o Brasil registrou um aumento no número de fumantes. A informação foi revelada em pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde, e aponta também que o percentual de adultos fumantes nas capitais brasileiras subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024. Para o psiquiatra Felipe Ximenes, em cidades grandes como Brasília, onde as pessoas têm uma rotina marcada por pressa, estresse no trânsito e alta carga de trabalho, o cigarro pode se tornar uma válvula de escape.
O profissional explica que o vício começa, geralmente, com uma experiência de prazer ou alívio imediato. “No cérebro, substâncias como a nicotina agem no sistema de recompensa, liberando tipos de hormônios chamados neurotransmissores em áreas ligadas à sensação de prazer e motivação”, relata. “Com o uso repetido, o cérebro passa a associar aquela substância ao bem-estar, e acaba ficando cada vez mais próxima disso, então cria circuitos de “aprendizado” que reforçam a necessidade do consumo”, detalha.
Assim, a médio prazo, a pessoa já não usa o cigarro apenas para aquelas sensações iniciais, mas como um instrumento de autoimagem, socialização e refúgio, para lidar com os desprazeres e dificuldades do cotidiano. “Muitas vezes, o indivíduo passa uma vida inteira sem perceber isto”, reflete o médico.
Já a longo prazo, Ximenes conta que a pessoa começa a fazer o uso do cigarro para evitar o desconforto da abstinência ou superar a tolerância que o organismo desenvolve a doses menores. “Esse ciclo é o que transforma o hábito em dependência”, afirma.
Para ele, o cigarro, muitas vezes, se torna uma “bengala emocional”. Pessoas recorrem ao fumo para mediar situações que têm dificuldade de lidar, como ansiedade, tristeza, solidão ou até celebrar momentos de prazer. “Quando tentam parar, não enfrentam apenas os sintomas físicos, ou seja, de falta da substância, mas também a ausência desse companheiro emocional”, explica.

Foto: divulgação/FMABC
Dia Nacional do Combate ao Fumo
Deixar o vício do cigarro para trás não é uma tarefa fácil, mas, com a ajuda de profissionais e o apoio de familiares, o processo pode ser menos doloroso do que muitos imaginam. No Dia Nacional do Combate ao Fumo, lembrado em 29 de agosto, especialistas destacam que pequenas mudanças de hábitos, como praticar exercícios, manter as mãos ocupadas e buscar atividades que distraiam a mente, já ajudam a enfrentar a vontade de fumar.
Para Ximenes, o momento de fumar, para muitas pessoas, coincide com os momentos de pausa, de encontro e de distanciamento da pressão. “Por isso, compreender e trabalhar os aspectos afetivos, que podemos chamar de dependência emocional, é tão importante quanto tratar os sintomas físicos”, afirma o médico.
Assim, a primeira etapa é reconhecer que esses gatilhos existem e que o cigarro causa problemas reais para a vida das pessoas. A partir daí, é possível desenvolver técnicas que se baseiam em identificá-los e construir formas alternativas de lidar com fragilidades pessoais e de buscar o prazer.
Os mecanismos são variados, podendo-se utilizar tanto métodos físicos de respiração, exercícios ou hidratação, quanto pequenas pausas durante o trabalho ou até mesmo hobbies. “Em um tratamento, trabalha-se com o paciente essas questões junto ao que mais funciona para cada perfil de indivíduo”, explica.
“Como exemplo, aqui na capital há muitos espaços abertos, como o Eixo Monumental e o Parque da Cidade, que podem ser aliados nesse processo. Trocar o cigarro por práticas que abarquem o corpo e a mente é um passo essencial para quebrar o ciclo da dependência”, acredita.
E quando o desejo surge – chamado também de fissura -, ele costuma durar poucos minutos, e vai embora quanto menos atenção se der a ele. “Manter as mãos ocupadas com objetos, como uma caneta ou até mesmo segurar e beber uma garrafinha de água, podem ‘driblar’ o cérebro naquele momento crítico”, revela Ximenes.
Além disso, atividades que envolvem concentração, como leitura, ouvir música ou realizar práticas manuais, também são úteis. “Essas estratégias, entre outras, funcionam como uma ponte até que o desejo passe, fortalecendo o autocontrole do fumante”, acrescenta.
Apesar desses “truques”, existem medicamentos com resultados científicos e aprovados que ajudam a reduzir a fissura e os sintomas da abstinência, como a bupropiona e o topiramato. No entanto, esses remédios não são indicados para todos os casos: os pacientes precisam de avaliação médica, pois levam em conta histórico de saúde, perfil emocional e até uso de outras medicações.
Há, ainda, alternativas que podem ser utilizadas ou associadas, a depender da pessoa. São um recurso valioso quando a dependência é intensa, mas sempre devem ser combinados a apoio psicoterápico e mudanças no estilo de vida, sugere o psiquiatra. Ele ressalta, também, que o apoio de familiares e amigos no processo é fundamental.
“Aliás, não só isso, é balizador. O tabagista precisa se sentir compreendido, e não julgado ou estigmatizado”, alerta. “Quando familiares e amigos participam, celebram pequenas vitórias, oferecem suporte na construção das ações substitutivas ao fumo e dão incentivo para continuar, sobretudo em possíveis recaídas, o processo fica muito mais leve e consistente”, afirma.
“Parar de fumar é um desafio que não deve ser enfrentado sozinho. Ainda mais em uma cidade como Brasília, onde a amplitude dos espaços deve ser ocupada pela convivência familiar e comunitária. Esse apoio pode ser o diferencial para transformar a tentativa em sucesso definitivo”, conclui.
Os impactos do tabagismo no corpo humano
No Brasil, mais de 174 mil pessoas morrem a cada ano por doenças causadas pelo tabaco, sendo 55 mil por câncer. Já no mundo, são oito milhões de mortes anuais, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.
A pneumologista Izabel Tereza Diniz explica que, na saúde respiratória, qualquer quantidade de fumaça inalada já afeta o pulmão. “Existe um sistema de defesa muito organizado no pulmão que reage a essa inalação ao tentar controlar o dano e limpar literalmente os agentes tóxicos”, detalha. “Mas no cigarro essa quantidade de substâncias é absurdamente alta e isso gera dano pulmonar a curto prazo e dificuldade de lidar com infecções a longo prazo, gerando a destruição daquele pulmão”, afirma.
Ela conta, também, que o cigarro afeta outros órgãos, sendo o coração um deles, que sofre risco cardiovascular, de AVCs e aumento no risco de vários tipos de câncer. “É muito importante entender o quão grave é a dependência química na nicotina e que, quanto mais jovem se experimentar a substância, maior a chance de se tornar um dependente químico”, alerta a médica.
Para ela, entre as principais estratégias, além da abordagem psicossocial, estão os ansiolíticos e as terapias de reposição como goma e adesivo, que devem ser usados com orientação médica e em momento oportuno para o tratamento. “Muitos pacientes iniciam o uso sozinhos e acabam se frustrando muito nas recaídas, que são completamente normais e esperadas, mas com apoio tudo se torna mais leve”, acredita.
A pneumologista revela que os benefícios já podem ser sentidos após minutos da cessação: batimentos cardíacos e pressão melhoram e, após algumas horas, os níveis de oxigenação no sangue aumentam.
“Após alguns dias, o olfato e o paladar já sentem melhor cheiros e sabores. Após alguns meses, as defesas do pulmão também melhoram e, em alguns anos, a redução do risco cardiovascular e de câncer de pulmão”, destaca.
Ela salienta, ainda, a importância da prática de atividade física durante o processo. “Exercitar-se, além de criar um novo hábito na rotina, que ajuda muito quem fuma, libera hormônios de prazer no cérebro e ativa o sistema de recompensa, facilitando o processo”, aponta. “É importante lembrar que o processo é difícil e doloroso, e que recaídas fazem parte”, finaliza.