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Saúde e nutrição com Clayton Camargos: A Substância

A busca pela juventude eterna não se limita às telas; a indústria do bem-estar movimenta anualmente cinco trilhões de dólares

E a Demi Moore, hein? Totalmente belíssima! No próximo domingo, 2 de março de 2025, o mundo do cinema volta seus olhos para o Oscar, onde o filme A Substância, estrelado por Demi Moore, desponta como uma das favoritas para o prêmio de melhor atriz. A trama aborda temas profundos como etarismo e a incessante busca pela juventude, questões que transcendem as telas e refletem dilemas contemporâneos sobre saúde e bem-estar.

Em A Substância, Demi Moore interpreta Elisabeth Sparkle, uma atriz veterana que, ao enfrentar o declínio de sua carreira devido à idade, submete-se a um tratamento misterioso que promete rejuvenescer temporariamente seu corpo. Sue, interpretada por Margaret Qualley, sua versão mais atualizada, a conecta com um portal para juventude onde o passado e o presente se imiscuem e modelam um futuro irreconhecível. A narrativa expõe as pressões da indústria do entretenimento sobre a aparência e a juventude, levando a protagonista a escolhas extremas com consequências inesperadas.

Essa premissa remete ao clássico dos anos 1990, A Morte Lhe Cai Bem, estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn, Bruce Willis e Isabella Rossellini. No filme, as personagens principais recorrem a uma poção mágica que concede juventude eterna, resultando em situações cômicas e trágicas que satirizam com galhardia a obsessão pela juventude. Ambos os filmes servem como críticas mordazes à cultura que valoriza a juventude a qualquer custo, muitas vezes em detrimento da saúde e do bem-estar.

A busca pela juventude eterna não se limita às telas. A indústria global do bem-estar movimenta anualmente cinco trilhões de dólares, oferecendo produtos e procedimentos que prometem beleza e vitalidade. Com o avanço da idade, a ânsia pela manutenção da aparência jovem tornou-se uma tendência global.

Nos últimos quatro anos, o número de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos aumentou 40% em todo o mundo, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). Em 2023, foram realizadas mais de 15,8 milhões de cirurgias plásticas e 19,1 milhões de procedimentos não cirúrgicos globalmente, com o mercado avaliado em US$ 82,6 bilhões. O Brasil liderou o ranking mundial, com mais de 3 milhões de procedimentos estéticos realizados, sendo 2 milhões cirúrgicos. Além disso, uma pesquisa recente divulgada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) aponta um crescimento de 390% na busca por procedimentos estéticos no país, com aproximadamente 80% dos entrevistados já tendo se submetido a algum procedimento não invasivo.

Entretanto, uma parcela significativa desses procedimentos é baseada em promessas infundadas e pode acarretar riscos importantes à saúde. A pressão social, amplificada por influenciadores digitais e celebridades, incentiva a busca por soluções rápidas e milagrosas, muitas vezes sem respaldo científico. Essa cultura do imediatismo pode levar a escolhas desastrosas, comprometendo não apenas a saúde física, mas também a mental.

Você já percebeu que muitos tratamentos que prometem resultados fantásticos para beleza e juventude tem uma aura misteriosa, envolvem ambientes luxuosos, conferem uma sensação de exclusividade, claro, com valores extravagantes e profissionais de saúde com aparência encerada de inteligência artificial diplomados em formações escalafobéticas pseudo Harvard? Pois bem, quanto mais enigmático e proibitivo mais atraente, e na mesma proporção sem evidências científicas que justifiquem a sua existência. Soros vitamínicos, chips de aminoácidos, compostos herbais estrangeiros, tudo ficção, quanto mais trambiqueiro mais caro e “chique”. É o marketing da escassez.

O envelhecimento é um processo natural e inexorável. Em vez de combatê-lo com medidas drásticas, é possível adotá-lo de maneira saudável e equilibrada. Estudos científicos comprovam que uma alimentação balanceada desempenha papel crucial na promoção da longevidade e na manutenção da saúde.

Dietas ricas em frutas, verduras, grãos integrais e proteínas magras fornecem os nutrientes necessários para o bom funcionamento do organismo e contribuem para uma aparência mais jovial. Além disso, a ingestão adequada de proteínas é essencial para a manutenção da massa muscular, que tende a diminuir com a idade. Como bem disse Hipócrates, o pai do sistema medicinal: “que teu alimento seja teu remédio, e que teu remédio seja teu alimento”. Comida de verdade e saudável é a verdadeira substância.

Além da alimentação, a prática regular de atividades físicas, o sono adequado e a gestão do estresse são pilares fundamentais para um envelhecimento bem-sucedido. Essas ações não apenas melhoram a qualidade de vida, mas também reforçam a autoestima e o bem-estar emocional, permitindo que as pessoas abracem suas idades com confiança e dignidade.

O estilo de vida é um fator mais forte na previsão do envelhecimento e da mortalidade do que a genética. Um novo estudo da Nature, publicado na semana passada, com cerca de 500.000 pessoas mostrou:

  1. 17% da variação da mortalidade foi associada ao estilo de vida (expossoma);
  2. <2% foram explicados pela genética. 

O estudo examinou 164 exposições ambientais, pontuações de risco genético para 22 doenças e um relógio de envelhecimento” proteômico para rastrear o envelhecimento biológico. Isso permitiu que os pesquisadores quantificassem as contribuições relativas do ambiente e da genética para o envelhecimento e a mortalidade.

Clique aqui para acessar o estudo: https://www.nature.com/articles/s41591-024-03483-9

Quando se trata de doenças graves, a genética desempenhou um papel maior em condições como demência e certos tipos de câncer. No entanto, para doenças do coração, pulmão e fígado, indicadores ambientais foram muito mais influentes. Os quatro maiores fatores que afetam o envelhecimento e a mortalidade foram tabagismo, status socioeconômico, atividade física e condições de vida.

O tabagismo foi associado a 21 doenças, enquanto renda, propriedade de casa e emprego foram associados a 19 doenças. A atividade física foi associada a 17 doenças, e os locatários tiveram piores resultados de saúde do que os proprietários.

Exposições no início da vida também tiveram efeitos duradouros. O peso corporal aos 10 anos de idade influenciou o envelhecimento décadas depois, e o tabagismo materno durante a gravidez aumentou o risco de morte prematura. Fatores ambientais definem a trajetória da saúde muito antes da idade adulta. 

Mais importante, 23 dos 25 principais fatores de risco identificados no estudo são modificáveis. Isso significa que melhorar o estilo de vida e as condições ambientais pode retardar o envelhecimento e prevenir doenças. Este estudo reforça um ponto-chave: seu ambiente e hábitos diários moldam o envelhecimento e o risco de doenças potencialmente mais do que seus genes. Embora a predisposição genética seja importante, ela não é determinística. As escolhas certas de estilo de vida podem mitigar muitos riscos. 

De toda sorte, a busca pelos motores para uma vida longuíssima não é um fenômeno recente. Literatos e estudiosos há muito tempo refletem sobre os padrões de beleza e o processo de envelhecimento. Oscar Wilde, em “O Retrato de Dorian Gray”, explora os perigos de desejar a eterna juventude, enquanto Simone de Beauvoir, em “A Velhice”, analisa as percepções sociais sobre o envelhecimento e suas implicações. Machado de Assis, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, nos lembra da efemeridade da vida e da importância de valorizar cada momento, independentemente das rugas que o tempo possa trazer

No grande teatro da história, poucos personagens encarnam tão bem a busca pela imortalidade quanto Juan Ponce de León. O célebre explorador espanhol, que fez fama entre os séculos XV e XVI, não se contentou em apenas navegar por mares desconhecidos – sua fama repousa sobre uma missão quase mitológica: encontrar a fabulosa Fonte da Juventude. Diz a lenda que, em sua viagem pela Flórida, ele buscava um oásis mágico cujas águas tinham o poder de rejuvenescer qualquer mortal. O detalhe incômodo? Ele nunca encontrou.

Mas sejamos justos: quem poderia culpá-lo? A busca pela juventude eterna é uma das mais antigas monomanias humanas. Desde os alquimistas medievais até as injeções de Botox contemporâneas, atravessamos séculos e civilizações em busca desse elixir dourado. Ponce de León, com sua armadura reluzente e sonhos grandiosos, foi apenas um precursor de algo que, na verdade, nunca saiu de moda.

Se no passado a promessa de uma vida eterna vinha na forma de fontes místicas e poções duvidosas, hoje ela se apresenta embalada em frascos de creme anti-idade, tratamentos a laser e dietas miraculosas. A diferença? A ciência pode ter avançado, mas o desejo permanece igualmente intangível. O envelhecimento continua sendo paradigmático, e a única coisa que realmente rejuvenesce nessa história é a indústria da beleza – um setor que, ironicamente, nunca envelhece e cresce a passos de gigante.

O mito da juventude eterna, antes contado ao redor de fogueiras, agora é disseminado nas redes sociais, em comerciais sedutores e no culto midiático a rostos e corpos tratados digitalmente. Se Ponce de León fosse um millenials, talvez não estivesse atravessando oceanos em busca de águas mágicas, mas sim assinando um plano premium em alguma clínica dermatológica de Beverly Hills.

Filmes como “A Substância” e “A Morte Lhe Cai Bem” servem como lembretes poderosos dos perigos de sucumbir à pressão social pela juventude eterna. A verdadeira “substância” para uma vida plena reside na homologação do processo natural de envelhecimento e na instalação de hábitos saudáveis que repercutam o bem-estar integral. Afinal, a beleza autêntica emana de uma mente equilibrada e de um corpo nutrido, refletindo uma vida vivida com propósito e alteridade, isto é, a beleza da autoaceitação.

Ah, o envelhecimento! Esse processo infalível que, como bem disse o poeta Carlos Drummond de Andrade, “a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos”. Mas será que estamos realmente desperdiçando a vida ou apenas buscando maneiras de prolongar nossa juventude e beleza? Que continuemos, portanto, a escrever nossa história com saúde, sabedoria e, claro, uma pitada de vaidade.

No fim das contas, as inúmeras “substâncias” talvez não passem de um reflexo do nosso eterno medo da sucessão dos ciclos da vida e sua finitude. Mas convenhamos: se o tempo é implacável, nada nos impede de enfrentá-lo com um razoável skin care noturno e uma dose generosa de autoironia.

Informação é prevenção. Você tem alguma dúvida sobre saúde, alimentação e nutrição? Envie um e-mail para dr.clayton@metafisicos.com.br e poderei responder sua pergunta futuramente. Nenhum conteúdo desta coluna, independentemente da data, deve ser usado como substituto de uma consulta com um profissional de saúde qualificado e devidamente registrado no seu Conselho de Categoria correspondente.

 

Clayton Camargos é sanitarista pós-graduado pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/Fiocruz. Desde 2002, ex-gerente da Central Nacional de Regulação de Alta Complexidade (CNRAC) do Ministério da Saúde. Subsecretário de Planejamento em Saúde (SUPLAN) da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). Consultor técnico para Coordenação-Geral de Fomento à Pesquisa Em Saúde da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde. Coordenador Nacional de Promoção da Saúde (COPROM) da Diretoria de Serviços (DISER) da Fundação de Seguridade Social. Docente das graduações de Medicina, Nutrição e Educação Física, e coordenador dos estágios supervisionados em nutrição clínica e em nutrição esportiva do Departamento de Nutrição, e diretor do curso sequencial de Vigilância Sanitária da Universidade Católica de Brasília (UCB). Atualmente é proprietário da clínica Metafísicos.

CRN-1 2970.

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