GPS | COTIDIANO

Black power na cabeça

COLABORADOR Pedro Lira   
|   04/01/2018 07:00 ( atualizada 04/01/2018 07:00)   
FOTO Reprodução   
A tendência para 2018 continua sendo a aceitação! GPS|Brasília aborda o orgulho do cabelo estilo afro

Mais do que estética e aparência, o cabelo é uma bandeira do ser humano. Se analisado, pode revelar idade, gostos pessoais, crenças religiosas, etnia e batalhas sociais, além de emoções, mensagens ocultas e até diferentes formas de ver o mundo. Os poderosos penteados podem ser usados em protestos, como foi o caso das mulheres, nos anos 1950, que adotaram cabelos curtos para encarar os homens e exigirem direitos iguais, ou do estilo black power, que mudou o mundo da moda fazendo referência aos movimentos negros americanos.

 

Mesmo com uma arma tão poderosa, negros e negras ainda se submetem a químicas, escovas, alisamentos, relaxamentos e todos os tipos de processos estéticos usados para alterar os crespos e poderosos cabelos afro. “Desde pequeno nós somos ensinados que nosso cabelo é feio, nossa pele é feia, temos traços feios, ou seja, somos pessoas feias”, diz o estudante de arquitetura Bruno Santos, de 23 anos. Negro, o jovem usa há cinco meses as tranças rastafári. “A medida que fui crescendo, comecei a me questionar sobre isso. Por quê? Fui estudar história e vi que existe sim beleza negra, que posso abraçar esses elementos estéticos e ser bonito”, explica.

 

Bruno está longe de ser o único. Aos 20 anos, Weyni Carvalho, estudante de publicidade e propaganda, foi mais uma que se deu conta da beleza afro que carrega em si. “Até 2013, era química e chapinha todos os dias. Até hoje tenho nojo do cheiro de chapinha”, conta. Nascida em família negra empoderada, a blogueira de moda afro foi influenciada pelas tias. “Desde pequena escuto conselhos delas para apostar nas tranças e abraçar meu lado negro. Claro que eu jurava que não combinava comigo e que seria mais bonita de cabelos lisos”, relembra.

A brasiliense Weyni Carvalho

 

Quando colocou aplique de cabelos lisos pela primeira vez, ela tomou consciência do autopreconceito que sofria. “Eu odiava me olhar no espelho porque não me sentia bem comigo mesma, aí decidi e fui para o estilo afro”, conta. “De lá pra cá me tornei outra pessoa. Descobri quem sou, minha identidade e uma confiança de poder ser natural”, explica.

 

O resultado foi o mesmo em Bruno. “Depois que me aceitei e usei o black power pela primeira vez, aumentei minha autoestima e mais importante, minha confiança em ser negro” diz. “Com o tempo, nós percebemos que vamos reproduzindo um padrão e uma regra social de que devemos raspar o cabelo feio e isso é o certo. Mas o que é feio e o que é certo? Hoje, sei que a minha beleza é a natural”.

 

Bruno não teve a mesma sorte de Weyni e tem em sua família, a maior parte negra, pessoas que ainda sofrem nos padrões de beleza européia. “Minha família quase toda tem cabeça raspada ou cabelos esticados”, conta. “Entre os próprios negros, infelizmente, existe racismo”.

 

AfroSalão

As cantoras IZA e Carol Conká

 

Apesar da tendência de o oprimido reproduzir o discurso do opressor, essa realidade está mudando. Segundo o cabeleireiro Reinaldo Fernandes, proprietário do salão Beleza Afro, voltado ao estilo negro no Conic, os jovens desta geração têm abraçado a negritude. “Nos últimos quatro anos houve um boom de aceitação do estilo afro. O cabelo alisado está dando espaço ao rasta, os dreads e as tranças, do crespo natural”, conta.

 

No mercado desde 1994, o penteador é otimista ao reconhecer os avanços, mas lembra a influência do racismo e a dificuldade que ele acarreta ao estilo estético negro. “Para fazer um penteado como o blend com tranças, as vezes é necessário 8h de preparação. Encontrar mão de obra capacitada e especializada no estilo é muito difícil”, conta. “Mas isso tem melhorado. No Conic mesmo, o número de salões que estão investindo no estilo está crescendo. A maior dificuldade ainda é achar alguém que saiba cortar e trabalhar em cabelos crespos”, revela.

 

O estilo está ficando tão popular que o pequeno número de mulheres brancas que adotam as tranças também está crescendo. “Eu acredito que os jovens estão quebrando esse preconceito racial. Aos poucos, mas estão. Vez ou outra meninas brancas vêm para trançar os cabelos e está tudo bem, nada de exclusão”, conta.

 

Uma questão de representatividade

As atrizes Sheron Menezes e Thaís Araújo

 

Depois de toda uma adolescência lendo revistas para meninas, como Capricho, Weyni percebeu que nunca têve uma referência para si. “Sempre fui apaixonada por moda mas nunca houve espaço para mim. Eu não via referência a mulher negra nas matérias”, relembra. “Quando fiz 18 decidi que iria mudar isso, eu mesma, criando meu blog Sofá Melanina, só para garotas negras”.

 

Se não existe uma referência para negras em revistas de moda, o que acontece com a juventude que não têm em quem se espelhar? “Nós vivemos em um mundo de imagem. Se uma mulher não vê em lugar nenhum, ela não cria identidade”, explica Weyni. “Ver uma capa de revista com uma negra faz diferença sim na rotina de homens e mulheres negros”.

 

O estudante Bruno não só concorda, como vai além. “A representatividade não tem que ser só na mídia. Para mim teria feito toda a diferença em empoderamento se tivesse um professor negro, não só o funcionário da limpeza na escola”, conta. “Estudar a história do negro como um povo poderoso e cheio de impérios e riquezas e não só como os escravos colonizados também. Tudo isso teria me ajudado e muito a aceitar meu cabelo, minha cor e minha identidade”, diz.


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