GPS | ENTREVISTA

A fórmula do amor

COLABORADOR Rebeca Oliveira   
|   12/12/2017 14:27   
Em entrevista ao GPS|Brasília, psicanalista e terapeuta Regina Navarro Lins defende amor sem rótulos e relações livres, tema do novo livro, "Novas formas de amar"

Existe uma fórmula certa para amar hoje? Regina Navarro Lins não foge da pergunta. E tem uma resposta pronta: toda forma de amor é justa, desde que esteja distante do idealizado amor romântico, ou aquele que defende uma fusão entre os parceiros. 

Há mais de uma década, a psicanalista e terapeuta expõem abertamente que os novos arranjos de relacionamento, como poliamor, serão o formato adotado pela ampla maioria dos casais modernos. Ela não tem dúvidas que relações à três serão tão comuns quanto os casamentos convencionais. Essas e outras abordagens (que esbarram em tabus) estão publicadas no recém-lançado Novas formas de amar, último livro da consultora do programa Amor&Sexo, da Rede Globo, e Em pauta, da Globo News.

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Entrevista | Regina Navarro Lins


Relações livres são o futuro da humanidade? 

Acredito que, no Ocidente, sim. Os sinais dessa mudança nos faz imaginar que daqui a algumas décadas menos pessoas vão optar por se fechar numa relação a dois e mais gente vai preferir relações livres, múltiplas.


A "família tradicional brasileira" está em crise? 

Antes da revolução industrial, no século 19, a família era numerosa - pai, mãe, filhos, avós, tios, primos -  e vivia no campo. A partir de então, se formou a família nuclear, que mudou-se para os centros urbanos - pai, mãe e filhos. Há algumas décadas essa família se transforma; são novos arranjos - um novo casamento com filhos de relacionamentos anteriores. Cada vez mais casais homossexuais adotam crianças. Hoje, sabemos que filhos de pais separados não apresentam mais dificuldades emocionais do que filhos  de pais que vivem juntos.

E pela primeira vez na história humana, algumas pessoas de países ocidentais começaram a escolher seus parentes, criando uma nova rede de parentesco baseada na amizade, e não no sangue. Segundo a antropóloga americana Helen Fisher, as associações são compostas de amigos. Os membros se falam regularmente e compartilham suas vitórias e dificuldades. Quando um adoece, os outros cuidam dele. Essa rede de amigos é considerada como uma família, que Fisher acredita poderá gerar novos termos de parentesco, novos tipos de política de seguro, novos parágrafos nos planos de saúde, novos acordos de aluguel, novos tipos de desenvolvimento de moradia e muitos outros planos legais e sociais.


Como enxerga o amor no futuro? 

O amor é uma construção social; em cada período da História se apresenta de uma forma. O amor romântico, pelo qual todos anseiam, traz a ideia de fusão - duas pessoas vão se transformar numa só, nada mais lhes faltando. Ocorre que a busca da individualidade que caracteriza a época em que vivemos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades na vida, desenvolver seu potencial.

O amor romântico propõe o oposto disso; prega que os dois se transformem em um só, havendo complementação total entre eles. Preservar a própria individualidade começa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico deixa de ser atraente porque vai no caminho inverso aos anseios contemporâneos. Esse tipo de amor está saindo de cena, levando com ele a sua principal característica: a exigência de exclusividade. Por isso, está se abrindo um espaço para novas formas de amar. Relações livres, poliamor, amor a três ganham cada vez mais espaço.  



Quando haverá uma revolução sexual a ponto de pessoas trans ou as que não se reconhecem com o gênero em que nasceram serem aceitas, sem distinções ou preconceito? 

Estamos no meio de um processo de profunda mudança das mentalidades. Mas essa mudança é lenta e gradual. O programa Amor&Sexo, da TV Globo, do qual sou consultora e participante, está sempre na luta pela quebra dos preconceitos. Penso que não haverá uma revolução sexual específica… Um dia, vamos nos dar conta que as pessoas trans passaram a ser aceitas com naturalidade. Da mesma forma que ocorre com a separação de um casal. Nos anos 1950/1960, por exemplo, era uma tragédia familiar, os filhos eram discriminados. Hoje, mais nada disso acontece.

Há muito tempo você defende a não-monogamia, mas os casamentos tradicionais ainda são maioria. Esse cenário algum dia pode ser meio a meio? 

Acredito que em algum tempo as relações não-monogâmicas irão predominar. Vivemos um momento interessante. Os modelos tradicionais de comportamentos não dão mais respostas satisfatórias. Com isso abre-se um espaço para cada um escolher sua forma de viver. Quando essa liberdade predominar, poucos irão optar por ficar 30 ou 40 anos se relacionando sexualmente com exclusividade com uma única pessoa.  

Suas teorias são pouco convencionais se comparadas ao senso comum. Já foi hostilizada por pensar e defender valores diferentes? 

Sim, nas redes sociais. Todos podem discordar de qualquer coisa e podem contestar, mas tem que ser com ideias. É muito comum as pessoas atacarem a vida pessoal do outro ou aspectos físicos. E isso não tem nada a ver com uma discussão de ideias. Então não dá nem para prestar atenção por serem afirmações de ódio, sem fundamento algum.

O conservadorismo brasileiro não a incomoda? 

Incomoda, mas não acredito que haverá um retrocesso. É claro que temos que ficar atentos para esclarecer os desinformados, que repetem afirmações absurdas que ouviram sem questionar ou refletir a respeito. O ataque em relação à performance do homem nu no Masp, de São Paulo, deixa isso claro. Os que agrediram o artista, chamando-o de pedófilo, parecem não ter a menor ideia do que seja pedofilia.



 


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