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Hey, ho! Lets go!

COLABORADOR Larissa Duarte   
|   29/11/2017 17:00 ( atualizada 29/11/2017 17:00)   
FOTO Cortesia   
Entre idas, vindas, pausas e recomeços, Raimundos é uma banda de fases

Que tal misturar o punk nova-iorquino dos anos 1970 com o puro forró nordestino brasileiro? A combinação parece confusa à primeira vista, contudo, se você olhar de pertinho, essa mistura não é tão estranha quanto parece. Inclusive, essa brilhante ideia, proveniente de uma brincadeira de músicos adolescentes apaixonados por rock’n’roll, em 1987, deu origem a uma das bandas brasilienses de maior sucesso nacional: os Raimundos.

Com letras satíricas, a banda é marcada por sucessos icônicos na cultura brasileira como Mulher de FasesA mais PedidaSelim, e tantas outras. Entre idas e vindas de integrantes, muita polêmica, temperamentos aflorados e paixão pela música, em 2017, o quarteto Digão, Canisso, Marquim e Caio Cunha excursionaram recentemente o Brasil - e o Uruguai -, levando o show Raimundos Acústico. O projeto mais audacioso do grupo teve gravação em Curitiba. Quatro mil fãs saudosistas aplaudiram de pé o retorno da banda.

“Ao longo dos anos, foram muitos altos e baixos. Somos assim, uma banda de fases. Já passamos por várias delas sem jamais negar a possibilidade de experimentar coisas novas. Sabemos que outros momentos difíceis virão e estamos fortalecidos para eles”, afirma Rodrigo Aguiar Madeira Campos, o eterno Digão dos Raimundos.

Tudo começou como uma brincadeira de criança “Quando eu tinha 16 anos, estava em casa de bobeira e ouvi de longe alguém tocando bateria. Pulei a janela e fui correndo atrás do som. Cheguei a uma casa próxima, toquei a campainha e quem abriu a porta foi Rodolfo Abrantes. O resto é história”, lembra o vocalista, guitarrista, fundador e integrante original da banda que começou em Brasília.

As visitas à casa do vizinho tornaram-se frequentes. As brincadeiras pós-aula viraram ensaios. Juntos, faziam covers de suas bandas favoritas, como Dead Kennedys e Ramones. O local era repleto de instrumentos musicais, incluindo bateria, que Digão era louco para tocar. Para participar da banda em formação, convidaram os amigos Titi e Canisso, para assumirem vocais e baixo, respectivamente.

O curioso “forró-core” - – mistura de forró com hardcore - – chamou a atenção pelas letras politicamente incorretas para a época. Por outro lado, apresentavam ritmo envolvente e qualidade de som. Fórmula que agradou aos brasileiros. A mistura surgiu em um momento de pura zoeira entre os integrantes da banda. “O Rodolfo cantarolava as músicas do cantor e sanfoneiro Zenilton durante os ensaios e em uma dessas brincadeiras a gente decidiu misturar Ramones com forró. O resultado foi a coisa mais doida e irada do mundo. Achamos sensacional”, conta Digão, no auge dos 47 anos. Consequentemente, o nome Raimundo foi inspirado na banda nova-iorquina Ramones, sucesso mundial na década de 1970.

O primeiro show aconteceu na virada de ano de 1987 pra 1988, em uma festa de Réveillon na casa de Gabriel Thomas, do grupo Autoramas. Os músicos impressionaram o público com a autenticidade das músicas e incentivaram os garotos a continuarem. Titi saiu da banda logo após o show, porém, os Raimundos seguiram com o trio Digão, Canisso e Rodolfo, que passou para o vocal.

Na estrada

Em 2017, os Raimundos aventuraram-se Brasil afora com um desafio completamente diferente de tudo que a banda já fez na vida: uma turnê acústica. A extensa grade de shows é consequência do lançamento do DVD Raimundos Acústico, gravado em novembro de 2016 pela Som Livre, em Curitiba. No trabalho, participações especiais que vão além do rock’n’roll, como o Dinho Ouro Preto, Ivete Sangalo, Alexandre Carlo do Natiruts, Marcão do Charlie Brown Jr., Oriente e o baterista da formação original, Fred Castro.

O conceito da apresentação acústica pede som baixo, tranquilidade nos vocais e público sentado. Algo improvável a uma banda tão agitada como o Raimundos. Para se adequarem ao tour, mantiveram o espírito do grupo. Segundo Marquim, o estilo do show traz uma renovação positiva nas músicas que tocam há tantos anos. “A recepção dos fãs foi ótima, muita emoção, muitas lágrimas... É como um momento de desforra para os fãs, que sempre souberam que essas músicas eram especiais, mas incompreendidas”, explica.


Raimundos Acústico

Para os integrantes, o show acústico foi muito mais complexo, com sample tracks (acompanhamento virtual) e click (metrônomo) em todas as músicas. “Para mim, tocar violão é mais difícil fisicamente do que tocar guitarra. Mas, o resultado é ótimo! A adaptação das músicas foi um processo às vezes difícil e às vezes fácil”, acrescenta Marquim. Afinal de contas, algumas músicas da banda, inclusive hits, nasceram para ser tocadas no violão, como Cintura FinaI Saw You SayingA Mais Pedida, entre outras. “Ficamos muito tempo no estúdio ‘esculpindo’ as músicas, fazendo os arranjos básicos e depois tivemos a ajuda nos arranjos de teclados, cordas e metais do Jorge Bittar, do Surf Sessions, que fez um excelente trabalho e abriu ainda mais os horizontes das músicas”, conta.

Idas e vindas

Tal qual o título de um dos seus maiores sucessos, Mulher de Fases, o Raimundos passou ao longo de sua trajetória por alguns vais e vens de integrantes. Dois anos após a criação, o grupo teve seu primeiro pause, quando José Henrique Campos Pereira, o Canisso, deixa o grupo para iniciar a faculdade e conceber uma família. Por problemas auditivos, Digão troca as baquetas pela guitarra. Em 1992, a banda reúne-se novamente. Desta vez, com Digão na guitarra, partiram em busca de um novo “batera”, vaga ocupada por um fã dos Raimundos, o Fred Castro. Banda formada, partiram para gravar uma fita demonstrativa do trabalho deles. O áudio de 1993 foi a porta de entrada da banda no mercado. Abriam shows grupos de rock nacional, como Camisa de Vênus, Titãs e Ratos de Porão.

O primeiro disco de fato foi lançado em 1994 com título homônimo. Na capa simples do CD, o nome Raimundos decorado com um chapéu de cangaceiro. No repertório, o “forró-core” em peso com letras bem-humoradas e cheias de palavrões. Quem passou pela década de 1990 reconhece o impacto que o álbum teve no cenário musical do País ao apresentar canções icônicas como Puteiro em João Pessoa e Nega Jurema. Todos cantavam de cor e salteado - – e cantam até hoje - – a letra do sucesso Selim, do verso: “Eu queria ser o banquinho da bicicleta...”.

Em 1995, o álbum Lavô Tá Novo continuou no gosto dos brasileiros, misturando ritmos que impediram a banda de cair na mesmice. O grande lançamentos das músicas Eu Quero Ver o OcoEsporrei Na ManivelaTora ToraO Pão da Minha Prima e I Saw You Saying (That You Say That You Saw) fazem com que o Raimundos destaquem-se mais ainda nas rádios, na TV e nos festivais.

Entretanto, o melhor ainda estava por vir. O CD Só no Forevis é lançado em 1999 e se consagra, anos depois, como o mais vendido da banda. Nele vieram os sucessos A mais PedidaMe Lambe e a emblemática Mulher de Fases. A capa amarela, com os integrantes da banda imitando um grupo de pagode, selou o estilo irônico do grupo. O título é uma homenagem ao bordão do humorista Mussum dos Trapalhões (forevis é um sinônimo para "nádegas"),  que morreu em 1994.


Só no Forevis, 1999

Após os dias de glória, o novo século trouxe dias de luta para a banda. O vocalista Rodolfo converte-se ao protestantismo, muda radicalmente hábitos e condutas e deixa a banda de uma forma pouco amistosa. Após várias reuniões, Raimundos anuncia seu fim em junho de 2001.

Poucos meses se passaram até que os músicos voltassem a tocar, desta vez sem Rodolfo, que nunca mais voltou a tocar com a banda. Na necessidade de um novo guitarrista, eis que surge Marquim. “Foi uma conjunção de fatores: eu conhecia o Tom Capone, diretor artístico da gravadora Warner Music à época. Ele era muito amigo do Fred. Tinha acabado de encontrar com ele em São Francisco, nos Estados Unidos, onde eu estudava Produção Musical e sua mulher estudava Inglês. Quando o Rodolfo saiu, eles pensaram em mim para assumir a guitarra”, conta o músico.

De 2002 a 2008, mais mudanças na formação. Canisso afasta-se da banda por cinco anos, voltando em 2007. Na mesma data, o baterista, Fred, resolve sair. O brasiliense Caio Cunha assume as baquetas. “Entrei em um show para substituir o Fred, sem compromisso. Eu sou muito fã do Raimundos. Quando a oportunidade apareceu, não pude ignorá-la”, conta Caio, que entrou na banda no mesmo ano em que montou seu consultório de odontologia em Brasília.

A nova formação deu segurança para a banda iniciar a turnê A Volta de Canisso, em 2008. O público percebe que a essência do bom e velho Raimundos estava mais vivo do que nunca. Após 12 anos sem lançar discos, a banda finalmente apresenta aos fãs, em 2014, o Cantigas de Roda, o oitavo álbum de inéditas do Raimundos. 

Como mudanças, renovação e ousadia são adjetivos presentes na carreira dos roqueiros. E, em 2017 entraram em uma nova fase. A fase da maturidade, presente no show Raimundo Acústico, vem angariando elogios por onde passa. Parece que os músicos brasileiros seguem ao pé da letra o hit Blitzkrieg Bop, da banda inspiradora, Ramones. O refrão “Hey ho let's go” parece ter sido criado para eles. Vida longa ao rock!


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