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Palavras escritas, histórias contadas

Expoente na literatura contemporânea, Maurício Gomyde usa a dinâmica de Brasília para dar enredo às narrativas e compor personagens

O despertador está programado para tocar às 5h. Mas, por volta das 4h30, ele está automaticamente de pé. Na verdade, já está sentado. À sua frente, a tela do computador em branco. Ou com o cursor piscando no final de um trecho incompleto. Ele estala os dedos, sussurra a si mesmo: "Vamos lá". É hora de entrar em ação e encarnar um personagem. Qual será o protagonista da vez?

É assim que o escritor Maurício Gomyde, 46 anos, inicia a rotina diária. Sábado, domingo, feriado, não importa. Para um dos maiores destaques da literatura independente brasileira, todo dia é dia útil para escrever histórias. Nascido em São Paulo, considera-se cem por cento brasiliense. Seu processo criativo é, em peso, influenciado por sua adolescência vivida na Capital e as particularidades da cidade.


Para ele, Brasília é apaixonante e original. Característica que deixa evidente ao criar personagens e cenas para suas obras. O escritor faz referências a locais específicos, costumes brasilienses e ao cenário musical, como sucessos da icônica Legião Urbana. Elementos da cultura pop também são temas assíduos em seus romances.

A história de amor com a literatura começou cedo. Nascido em família de alma leitora, as estantes de casa sempre estiveram abarrotadas de livros. “Aquela história de que livros são difíceis ou distantes de crianças foi um mito pra mim. Sempre tive muitos livros ao meu alcance”, conta. No ambiente escolar, Maurício agradece por ter estudado em uma escola onde toda segunda-feira os alunos tinham que entregar cinco redações. “Isso era o terror da maioria dos meus colegas, mas eu adorava”, lembra.

Na faculdade, mesmo cursando Tecnologia em Processamento de Dados, na Universidade de Brasília, a literatura sempre o espreitava. Vira e mexe escrevia uma história. Para si mesmo, como um inocente hobby. Assim, nasceu seu primeiro livro O Mundo de Vidro, em 2001. Nos anos seguintes ao lançamento, trocou a caneta pelas baquetas. A carreira como escritor ganhou um pause para dedicar-se ao rock. Até hoje, a banda Birinaite está em atividade pelos pubs da Capital.

Anos depois, em meados de 2009, Maurício recebeu um e-mail de um amigo com um link do Skoob –- a primeira rede social brasileira de literatura. O endereço levava a uma versão virtual da sua primeira obra, postada por algum fã misterioso. Surpreso e saudosista, o autor resolveu melhorar o livro “já que a primeira versão tinha ‘falhas’ de escrita e lógica”, explica. Reescrito e com nova capa, O Mundo de Vidro foi relançado na plataforma digital em 2010.

O escritor considera uma loucura, mas, sem nenhum arrependimento, ao que fez à época para divulgar a publicação: “Eu vendi meu fusquinha para fazer uma tiragem de mil cópias do livro. Enviei e-mails para 500 leitores do Skoob, perguntando se eles gostariam de receber meu livro em casa. Eles toparam. Mandei as cópias para eles e logo os feedbacks começaram”, relembra. Além das boas avaliações, os leitores cobravam por novas histórias.

Desde então, a internet tornou-se aliada. A partir do lançamento do segundo livro, Ainda Não te Disse Nada, em 2011, o escritor firmou parcerias, chegando a ter 700 parceiros. No ano seguinte, foi a vez de O Rosto que Precede o Sonho, que trouxe em suas páginas a história de um personagem que mora em um barco ancorado no Lago Paranoá. Em vez de enviar obras para editoras, Maurício decidiu aproveitar o crescimento da internet e das redes sociais a seu favor e evoluiu no segmento de forma independente.

Tudo começou a mudar em 2013, quando lançou o quarto livro, Dias Melhores para Sempre. Maurício esteve no Rio de Janeiro coincidentemente no mesmo período da Bienal do Livro. No evento, por intermédio de uma amiga casual, deixou o livro com um representante da editora Novo Conceito. Já em 2014, junto com a ligação surpresa da editora, veio a proposta para lançar o quinto livro. A Máquina de Contar Histórias ficou pronto no mesmo ano e lhe rendeu seu primeiro estande na Bienal de São Paulo.

Após esse lançamento, Maurício conversou com sua agente e revelou o desejo de migrar para a editora Intrínseca, uma das maiores do País, responsável pela publicação dos best-sellers A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak), A Culpa É das Estrelas (John Green), Extraordinário (R. J. Palacio). Seu texto e proposta foram bem recepcionados pela empresa e, assinando pela nova casa, escreveu o sucesso mais recente: Supreendente!. A obra entrou para listas de mais vendidos pelas revistas Veja e Publish News, além de elencar os finalistas do Prêmio Jabuti, tudo em 2016. Além disso, atravessou o Atlântico e chegou a Espanha, Portugal, Itália e Lituânia.

Todo escritor é uma antena

Maurício Gomyde revela que a inspiração pode vir a qualquer momento. Seja onde for, quando uma ideia aflora, ele abre o bloco de notas do celular e registra tudo. No meio da rua, no almoço, na fila do mercado, no trânsito, no expediente profissional – o escritor também é auditor no Tribunal de Contas da União (TCU) – qualquer hora é hora para surgir uma nova trama ou personagem.

Por exemplo, a reflexão para o livro O Rosto que Precede o Sonho surgiu durante o velório de um amigo. “Era uma ocasião muito triste e um rapaz fez um discurso tocante sobre as lições de vida que aprendeu com o falecido”, conta Maurício, que, internamente, dedica a obra ao amigo.

Maurício conecta-se completamente com cada personagem que cria. Por trás deles, o escritor desenvolve uma história de vida que, não necessariamente, estará descrita nas páginas. Faz parte do processo criativo. “Eu encaro todas as minhas criações. Já fiz até aula de surfe por causa de um personagem. O importante é viver intensamente o que você está escrevendo”, explica.

Surpreenda-se

A história do seu sexto livro surgiu a partir de uma simples pergunta que minou na cabeça do escritor: qual é a pior coisa que pode acontecer com um cineasta? Assim nasceu o personagem Pedro de 25 anos, diagnosticado na adolescência com uma doença degenerativa que o levaria à cegueira. Sob essa condição e movido pela vontade de usufruir da sétima arte, ele decide gravar seu próximo filme. O objetivo? Ganhar o prêmio Cacau de Ouro e se consagrar como diretor, já que ficará cego. As filmagens do filme são feitas durante uma road trip de São Paulo até Pirenópolis, Goiás. Pedro e os amigos Fit, Mayla e Cristal viajam a bordo de um Opala “envenenado” enquanto o autor faz diversas referências ao cinema.

De cara, os cinéfilos se identificarão com o livro. Durante a aventura e seus altos e baixos, nasce a história de uma amizade verdadeira. O final, não poderia ser outro além de um desenlace surpreendente tanto para o leitor, quanto para o personagem principal. “Poucos sabem, mas eu coloquei um enigma ao longo da história. Ao todo, o livro traz seis dicas de qual é o filme favorito de Pedro, um ‘mistério’ que deixa o leitor curioso quando a história termina”, confessa Maurício. O GPS|Brasília indica a viagem.
 


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