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Interior fantástico

COLABORADOR Pedro Lira   
|   18/10/2017 16:45 ( atualizada 18/10/2017 16:45)   
FOTO Luara Baggi   
Luiza Araújo supera estigmas e, com variação de autismo e problemas na socialização, lança o primeiro livro em Brasília

Acordar, falar com a família, sempre com um sorriso no rosto, e cantar! Após aquecer com a música e uma história ou outra da Turma da Mônica, a jovem escritora Luíza Araújo se inspira. É hora de colocar no papel, sempre à mão, as histórias fantásticas dos mais de 160 personagens conhecidos por todos como os "filhos de Luiza". Essa é a rotina da jovem que surpreendeu a cidade ao lançar seu primeiro romance: Sixteen.

 

"Eu escrevo todos os dias: à tarde, à noite, pela manhã...", conta a escritora. "Criei os personagens da minha cabeça, como se todos fossem reais. Com eles, viajo no tempo", diz, encantada. Na história, dividida em três volumes, cerca de 167 deles vivem em um reino encantado, separado por dois reinos rivais. No roteiro, suspense, mistérios, dramas, confusões e muito romance.

 

"Eu gosto muito de Romeu e Julieta, de histórias de amor", diz Luiza. A coach terapeuta Solange Perpin, que acompanha a brasiliense há cerca de um ano, concorda com a escritora mirim. "A Luiza é uma romântica. Ela coloca no papel o seu mundo interior", explica. A jovem, que tem um talento nato para a linguagem, tem dificuldades com a área de das exatas. "Noções espaciais e de quantidade não são o forte dela, mas a memória, a criação de enredos e o conhecimento histórico são incríveis."

 

Gilma Araújo, Luiza e Solange Perpin

 

Acompanhada por Solange, Luiza passou por desenho, aquarela e diferentes linguagens até chegar na contação de histórias. "Ela amava Maria Bonita, Joana D'Árc e histórias épicas assim", lembra. Solange então sugeriu que a jovem escrevesse a própria história e convidou Gilma Araújo, a mãe, para digitar o livro, escrito à mão.

 

"No começo, ela não me mostrava o que estava fazendo. Dizia que era segredo dela e da Solange. Até que, um dia, foi convidada para a reunião delas. Foi quando fiquei sabendo do projeto", conta Gilma. A aposentada lembra que passou por essa situação muitas vezes, quando os diferentes professores retiravam a filha das aulas. "Foi assim no balé, no violão, inglês, espanhol, moda, equitação, e em outras escolas… Já escutei da professora de piano que se eu não tirasse ela das aulas, a profissional quebraria os dedos da minha filha."

 

Quando Gilma começou a digitar a história, se surpreendeu. Não imaginava que a filha pudesse escrever um enredo tão complexo. "Achei que ela escreveria coisas sem nexo, mas não. Aquilo foi incrível", diz. Luiza nunca teve amigos e interagia pouco com as pessoas. A criação dos personagens e suas ligações foi um avanço. "Às vezes, parava de digitar. Me emocionava."

 

Cartazes criados por Gilma para confirmar a relação dos personagens

 

Gilma e Solange criaram uma árvore genealógica para confirmar a relação de todos os perosnagens. "Comprados um programa de computador para confirmar que não havia nenhuma ponta solta, personagens trocados ou coisa do tipo". Orgulhosa, a mãe confirma: ˜não achamos nenhum furo!˜

 

Questões internas

 

Solange, que é arte terapeuta, esclarece que um artista precisa voltar-se para seu interior ao criar uma obra. "Luiza coloca, de forma sutil,  aspectos da própria personalidade. Ela tem um incrível senso de justiça e inclusão que demonstram em parte que todos os personagens falam juntos. Todos têm voz e são incluídos", explica.

 

A história, apesar de todas as confusões, é um romance em que os vários personagens buscam sempre pela felicidade. "Ela nos diz que precisamos persistir na busca por esse sentimento."

 

Gilma concorda. "Antes da literatura, Luíza ficava no canto da casa, uma parte escura. Não saía para falar com ninguém, não deixava ser tocada e tinha muito medo das pessoas. Agora ela saiu de lá! Passa o dia cantando e, principalmente, conversa", conta, emocionada. No dia do lançamento (em 29 de setembro), a jovem pegou o microfone e roubou a cena. Cantou o bingo, fez piadas e apresentou a história para as mais de 200 pessoas que foram a prestigiar. "Eu chorei porque nunca imaginei que veria Luiza desenvolta daquele jeito."

 

Alguns dos protagonistas desenhados por Luiza

 

Uma obra inclusiva

 

O livro foi publicado de forma independente por Gilma. A brasiliense imprimiu 200 cópias nas quatro línguas da obra: português, inglês, espanhol e chinês. "Eu busquei parceiros que precisam de um projeto para animar a vida! Queria que Sixteen levantasse eles da forma que fez com Luiza", diz. Os tradutores e ilustrador passaram por problemas de depressão e não tem uma carreira muito conhecida.

 

Além disso, Luiza e Gilma criaram o projeto Sixteen Nas Ruas. Mãe e filha deixam a publicação em diferentes lugares como praças, aeroporto, bicicletas em Brasília, Rio de Janeiro e até Estados Unidos. "No livro, deixamos um recado para as pessoas lerem e passarem adiante. Além disso, o e-mail para entrar em contato", explica Luiza. Inclusive, leitores já mandaram mensagens pedindo logo pela segunda temporada da história.


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