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128 anos de Cora

COLABORADOR Pedro Lira   
|   20/08/2017 12:00 ( atualizada 20/08/2017 12:00)   
FOTO Cortesia   
De temperamento forte, pouca gramática e mãos afeitas aos doces, Cora Coralina completaria hoje 128 anos

Uma das poetisas mais sensíveis do Brasil nasceu na Cidade de Goiás. Cora Coralina encontrou inspiração na rotina pacata dos goianos interioranos para escrever poemas sobre o cotidiano. Leonina, guerreira, apaixonada, – nasceu em 20 de agosto de 1889 – foi mãe de seis filhos: Paraguaçu, Eneas, Cantídio, Jacyntha, Ísis e Vicência. Ísis e Eneas morreram logo após o nascimento. 

 

Antes de embarcar no sucesso com os versos, a goiana era conhecida pela habilidade em preparar doces. Os de frutas cristalizadas eram os mais famosos. Transformou em literatura o mesmo amor e jeito simples de quem adoçava a boca dos conterrâneos. A partir de então, a poesia passou a açucarar os corações. 

 

Alheia aos estudos e modismos da literatura da época, produziu uma obra que descrevia com ar poético a vida cotidiana do interior brasileiro. O primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, foi publicado em 1965, quando Cora tinha 75 anos. Onze anos após o primeiro lançamento, compilou o Meu Livro de Cordel. A terceira obra, Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha, foi lançada em 1983, aos 94 anos.

 

 

Mais de 30 anos após sua morte – em 10 de abril de 1985, por complicações de uma pneumonia – Cora ainda vive na Cidade de Goiás. Ou melhor, a sua memória está por todos os lugares. A Casa Velha da Ponte, como ficou conhecido seu lar, abriga um dos museus mais populares do estado. Seus vestidos floridos ainda estão pendurados na parede. Na cozinha, tachos de cobre descansam sobre o fogão à lenha, esperando por mais uma leva de frutas cristalizadas. 

 

A antiga bengala, companheira fiel nos últimos dias de vida, divide espaço com a poltrona de couro marrom e os poemas, espalhados nas paredes. São 12 ambientes na casa. A construção foi uma das primeiras da cidade e fica às margens do Rio Vermelho. No local, o acervo com dez mil documentos é preservado. Da janela do casarão, uma estátua de dona Coralina observa o movimento lento e pacífico das ruas de Goiás Velho. 

 

 

Inspiradora 

 

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas – filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e da dona de casa Jacinta Luísa do Couto Brandão – assumiu o pseudônimo Cora Coralina aos 14 anos. Mesmo com baixa escolaridade e pouco conhecimento gramatical, começou a escrever nova e já publicava algumas palavras nos jornais locais. Os textos brincavam com sonhos e felicidade. 

 

Aos 22 anos de idade, a poetisa abandonou a vida conservadora em Goiás e fugiu para o interior de São Paulo com o amado, Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas. O chefe de polícia era casado e duas décadas mais velho do que ela. Como não havia divórcio na época, só puderam oficiar a união 14 anos depois, quando ele ficou viúvo. Na época, Cora fugiu grávida de gêmeos. 

 

Mal falada pelo romance proibido, respondeu às críticas com poesia pura e densa: “Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi”.

 

 

Cantídio faleceu em 1934. Cora e os filhos mudaram-se para São Paulo capital. Na cidade, colaborou com o jornal O Estado de S. Paulo e trabalhou como vendedora da livraria José Olympio. Com dificuldades, voltou para o interior, Penápolis (SP), onde passou a produzir e vender linguiça caseira e banha de porco, preparar doces e até mesmo trabalhar na agricultura. 

 

Quarenta e cinco anos depois da fuga com o amado, a poetisa voltou a Goiás. Por volta dos 50 anos de idade, dona Aninha relatou ter passado por uma profunda transformação. Mais tarde chamou de "perda do medo". Foi nessa fase que assumiu de vez o pseudônimo Cora Coralina e tornou-se a poetisa oficial de Goiás Velho. Não à toa escrevia frases como esta: “recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”

 

Parceria

 

Fazendo valer a fama de ousada e de personalidade forte, Cora pegou o seu livro Poemas dos Becos de Goiás, alguns dos melhores doces que produzia e mandou para o saudoso escritor Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro, por intermédio da Universidade Federal de Goiás. Não deu outra. O poeta mineiro encantou-se e respondeu em carta endereçada à UFG: 

 

“Cora Coralina, 

Não tenho o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos. Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu verso é água corrente, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais. Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina. Todo o carinho, toda a admiração do seu.” 

Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, 14 de julho de 1979

 

Assim, Drummond adotou Cora. Por muitos anos, os dois cultivaram a amizade por meio de cartas. Muitas publicadas no Jornal do Brasil, aumentando a credibilidade da escritora em nível nacional. Dessa forma, a poetisa conquistou o País. Os gênios dos versos nunca se conheceram pessoalmente.

 

 

MINHA CIDADE

Goiás, minha cidade...

Eu sou aquela amorosa

de tuas ruas estreitas,

curtas,

indecisas,

entrando,

saindo

uma das outras.

Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.

Eu sou Aninha.

 

Eu sou aquela mulher

que ficou velha,

esquecida,

nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,

contando estórias,

fazendo adivinhação.

Cantando teu passado.

Cantando teu futuro.

Eu vivo nas tuas igrejas

e sobrados

e telhados

e paredes.

 

Eu sou a menina feia

da ponte da Lapa.

Eu sou Aninha.

 

TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho.

Seu cheiro gostoso

d’água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.

 

Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

 

Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

a vida mera das obscuras.

 

Mulher da vida

Mulher da Vida,

Minha irmã.

De todos os tempos.

De todos os povos.

De todas as latitudes.

Ela vem do fundo imemorial das idades

e carrega a carga pesada

dos mais torpes sinônimos,

apelidos e ápodos:

Mulher da zona,

Mulher da rua,

Mulher perdida,

Mulher à toa.

Mulher da vida,

Minha irmã.

 

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:

Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vida

e delas me sirvo

Aprendi a viver.

 

Frases

 

“Desistir… eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”

 

"Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma."

 

"Não podemos acrescentar dias à nossa vida, mas podemos acrescentar vida aos nossos dias."

 

"Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas… Daqui para frente levo apenas o que couber no bolso e no coração."

 

"Feliz é aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina."

 

"Há muros que só a paciência, derruba…. Há pontes que só o carinho constrói."

 


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