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A arte de Siron

Aos 70 anos e cinquenta de carreira, Siron Franco é o artista plástico vivo mais reconhecido internacionalmente. Sua exposição "Cuidado, frágil", segue em turnê europeia

Goiânia – Foi por telefone o primeiro contato. Logo depois do primeiro alô a sensibilidade do entrevistado apareceu. "Antes de mais nada, gostaria de parabenizá-la pelo Dia Internacional das Mulheres", disse o artista à repórter. Só depois de derramar elogios ao sexo oposto e mencionar a importância feminina na sociedade, iniciamos a conversa para agendar a entrevista pessoalmente. Assim é Siron Franco. Um homem gentil. Engajado nas questões sociais. "Sabia que durante o processo criativo da minha próxima exposição, Cuidado, frágil, estavam acontecendo os massacres nas prisões do Brasil? Minha obra tem a ver com toda essa violência no mundo e com quão frágil a vida é", comenta.

 

Entusiasmado ao falar, inquieto no agir. Siron não para um segundo. Recebeu a equipe do GPS|Brasília para um bate-papo de três horas em seu ateliê, numa chácara nos arredores de Goiânia. Logo na chegada, aquela parada de 20 minutos na porta de entrada para iniciar a conversa, uma prática que nos lembra o interior. Depois, fomos convidados a entrar. Assim, emenda um assunto no outro. 

 

Fala sobre os momentos históricos que presenciou, o período sombrio da Ditadura Militar, os encontros marcantes da vida. A querida Clarice Lispector, o fantástico Manuel Bandeira, o gênio Darcy Ribeiro, o pintor Di Cavalcanti. “Eu tive muita sorte em conviver com essa turma”, reflete. São 70 anos de vida – a serem completados em julho próximo – e 50 dedicados à pintura. Legado que marcou o mundo pela arte ora surrealista ora hiper-realista. Uma arte sobretudo única e visceral.

 

 

Aconchego do lar

 

No ateliê do artista, restos de tintas sobre a mesa dividem espaço com catálogos de exposições que fez em Londres, Alemanha, Amsterdã... A paixão pelos povos primitivos está representada por máscaras africanas nas paredes. Instalações em forma de casulos tridimensionais feitos de fumo de rolo caem do teto, assim como a próxima obra, que lembra uma armadilha de ouro, reforçam o conceito da ancestralidade. A atmosfera pictórica é completada pela trilha sonora embalada pelo compositor indiano Ravi Shankar.

 

Em meio ao caos organizado do local, uma bicicleta encostada num canto chama a atenção. Siron Franco costuma pedalar pelas redondezas da chácara, admirando a natureza. Entre uma prosa e outra, não é difícil notar sua simplicidade. Trajando calça jeans, camisa preta e boné, ele aparenta ser bem mais jovem do que a idade real. No currículo, leva três casamentos, cinco filhos. Aos 28 anos, ganhou todos os prêmios que um artista poderia almejar. É sem dúvida o artista brasileiro vivo mais reconhecido internacionalmente e não para de produzir. “Sou Leão com ascendente em Aires, não paro de trabalhar nunca”, diz. Mas, muito além do signo, Siron é uma alma jovem. Tem sede de se reinventar. Sua arte de vanguarda ecoa ventos de mudança.

 

Caminho trilhado

 

“Vivia na Rua da Abadia número 25, em Goiás Velho, Goiás. Defronte à minha casa havia uma catedral do século XVII com muitas pinturas barrocas. Minha mãe me levava no colo e ali possivelmente foi o meu primeiro contato com a arte, pois, até hoje, essa cena é muito forte em mim”, relata.

 

Filho caçula de uma família de dez irmãos, Siron – batizado Gessiron Alves Franco – nasceu em um lar onde os mais velhos trabalhavam para que o mais novo tivesse mais oportunidades. Desejavam que ele fosse médico. Mas, desde cedo, sabia que não era esse o seu destino. Autodidata, aos nove anos copiava artistas como o grego El Greco. Não demorou para ser aceito na Faculdade Católica de Belas Artes em Goiânia, aos 13 anos.

 

 

Com essa idade, Siron produzia retratos e caiu nas graças da classe intelectual brasileira. Foi ao Rio de Janeiro pintar o retrato da esposa do embaixador Lauro Moreira, a embaixatriz e poetisa Marly de Oliveira. Durante uma festa na cidade, conheceu a escritora Clarice Lispector e o poeta Manuel Bandeira.

 

“Eu tive muita sorte. Aos 13 anos, convivia com pessoas mais velhas. Minha mãe ficava preocupada porque meus amigos tinham 50, 60 anos. Todos me tratavam como filho e eu os considerava meus mentores. É o caso de Alfredo Volpi, Millôr Fernandes, Darcy Ribeiro, Antônio Houaiss, Bruno Giorgi, entre outros”, orgulha-se.

 

Obra consolidada

 

Siron começou pintando retratos, paisagens e fez inúmeras madonas que caíram no gosto da high society brasileira. “Quando garoto, eu fazia retratos para viver, era uma coisa acadêmica, para ganhar grana e no final do ano botar fogo em tudo aquilo”, conta. "Eu tinha um grilo com essa história. Mas, quando descobri que Mondrian também fazia arte comercial, eu respirei tranquilo”.

 

A aclamação pela crítica veio na Bienal Nacional da Bahia, em 1968, quando ganhou o primeiro lugar com a obra O Cavalo de Troia.

 

A pintura sempre foi o grande rio de Siron. Contudo, alguns afluentes marcam sua trajetória. Dentre eles, os documentários: XinguKuarupO Desafio do Lixo. No teatro, ganhou o Prêmio Mambembe pela peça Martim Cererê, dirigida por Marcos Fayad. Outro desvio no caminho da sua vida foram as interferências urbanas.

 

Na década de 1970, criou o projeto Ver-a-Cidade, que propunha um olhar sobre a cidade do ponto de vista ambiental e contra a violência. As intervenções não eram bem vistas pelos colecionadores na época, mas nascia ali aquilo que Siron chamou de Artivismo.

 

 

Momento marcante na vida do artista foi quando ganhou o prêmio na 12ª Bienal Nacional de São Paulo, em 1974. Começava ali a consolidação da fama internacional. Ao ganhar a Bienal, ele, automaticamente representava o Brasil na 13ª Bienal Internacional de São Paulo. Em 1975, Siron repetia o feito do ano anterior, levando o prêmio de melhor pintor.

 

No mesmo ano que venceu a Bienal Internacional de São Paulo, Siron ganhou o Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro pelo quadro A Rainha. O prêmio era uma bolsa de estudos por dois anos em qualquer lugar da Europa. O goiano mudou-se para a Espanha. Pôde ver de perto as obras de El Greco, o artista que copiava na infância. 

 

Em visita a Paris, ficou sem fôlego ao ver a coleção de Ciccillo Matarazzo de cerâmicas carajás no Museu do Homem. “Depois eu percebi que ali estava nascendo o Monumento das Nações Indígenas que fui criar em 1992”, conta.

 

Viver em outro país fez Siron pensar muito no Brasil. Quando voltou, sua obra estava impregnada de novos elementos, mas o traço de protesto e denúncia nunca o abandonaram.

 

Sua obra premiada é, sobretudo, um objeto de contemplação. É preciso um momento de reflexão para assim ver as imagens saltarem da tela que num primeiro momento você não consegue visualizar. Como uma ilusão de ótica, ele confunde o imaginário do espectador. As pinturas dos anos 1970 eram prontas para o expectador em forma de figurações muito fortes. Registraram a Ditadura Militar e o terror que ela significou para o artista.

 

Por exemplo, em 1987, o acidente radioativo que marcou Goiânia pelo episódio com o Césio 137 foi tema de uma série de 23 telas em que Siron denunciava o descaso das autoridades com a população. Quando a prestigiada crítica de arte venezuelana Bélgica Rodrigues viu a série, disse que Siron havia feito a “Guernica da America Latina", em referência ao quadro do pinto Picasso.

 

Nesse período, as séries Curral Peles questionavam a relação do homem com o animal, reverberando uma mistura de gente e de bichos nas telas. Ele atentou para as questões da natureza numa época em que ninguém falava disso. “Aprendi em casa com meus pais que o homem poluía o rio em busca de ouro, mas ele não sabia que no futuro o negócio não seria o ouro e, sim, a água”, resume.

 

Grande parte do trabalho de Siron está preservado em acervos pessoais pelas cinco regiões do País. Alguns colecionadores adquirem obras do artista desde a década de 1970. Em museus é possível ver o artista no MASP, MAC e FAAP em SP, MnBA e MAM no Rio de Janeiro, MON em Curitiba, MAM de Salvador. Para citar apenas alguns estados, Bahia, Salvador, Brasília, Goiânia e Rio de Janeiro possuem instalações do escultor pelas ruas. Fora do Brasil, Paul McCartney e Bill Clinton foram presenteados com quadros do pintor. 

 

 

Capital do País

 

“Brasília é o meu lugar. Eu amo a cidade. A conheci pela primeira vez em 1968, convidado pela primeira-dama na época, Iolanda Costa e Silva”, relembra. Inclusive, na época, as chances de Siron servir ao Exército eram grandes, pois ele fazia desenhos arquitetônicos. Habilidade útil aos militares para construir rodovias. Felizmente, o artista caiu nas graças de dona Iolanda, que se encantou por um retrato que Siron pintara de uma dama. Na mesma hora, pediu para o artista retratar sua bisavó Julia Cravero de Sá, com base em uma fotografia antiga. Assim, conseguiu livrar-se da carreira militar.

 

Siron lembra que quando Collor de Melo se lançou candidato a presidente esteve em Goiânia e visitou seu ateliê. “Eu disse que o apoiava se ele fizesse o Depósito de Rejeito Radioativo na cidade. Fui atendido e, além de construir o local, o ex-presidente me mandou um telegrama de Roma dizendo que estava assinando o projeto”, revela.

 

O goiano é bem relacionado com chefes de estado e governadores. “Eu não sou de partido algum, eu tomo partido. O meu partido é o Brasil”, reitera. Quando houve o assassinato do índio Gaudino Pataxó, em Brasília, em 1992, o artista inquietou-se e providenciou um monumento que denunciasse a barbárie. Uma instalação em metal com um corpo de mãos para o alto, na Praça do Índio, na 702/703 Sul. “Morava na Bahia e o governador, na época, Cristóvão Buarque, mandou um caminhão com o material para eu fazer a obra. Quero ver se este ano eu volto a Brasília para colocar o texto que relata o episódio”, conta.

 

Uma obra bastante emblemática feita na Capital Federal foi a ratoeira gigante que o artista colocou nos gramados do Congresso. “Em vez de a isca ser o queijo era o mapa do Brasil em espelho que refletia o Senado. Os jornalistas puderam tirar fotos, mas, logo em seguida, a arte foi recolhida”, relembra.

 

Em construção

 

O próximo trabalho na cidade será um painel de cerâmica no Residencial Siron Franco, do empresário Paulo Octavio, na Asa Norte. No próximo ano, Siron fará uma exposição retrospectiva no Brasil. Está organizando seu acervo para a criação do Instituto Siron Franco, em Goiânia.

 

Sobre novos desafios, o artista se diz pronto para aprender algo novo. “Sempre achei que não tinha personalidade, porque cada dia pintava de um jeito diferente. Queria descobrir uma técnica única. Com o tempo, percebi que eu não tenho essa técnica. Para mim, personalidade não deixa de ser um curral que vira ego”, devaneia.

 

Quando mudou de estilo na pintura, alguns colecionadores acharam que o artista havia se perdido. “Só quando você entra em algo que não conhece é que você aprende uma coisa nova”. Diante destas questões, Siron filosofa: “é aquela velha história, se eu não tivesse mudado, as pessoas diriam: 'é uma pena né, ele continuou fazendo a mesma coisa'. Esta frase é fantástica, né? Você poderia finalizar a matéria assim”. Sugestão atendida. Afinal, um artista como Siron Franco sabe como ninguém o melhor desfecho para uma obra.

 

 

Cuidado, frágil

 

O artista comemora 50 anos de pintura com a exposição Cuidado, frágil. Começa dia 7 de abril em Madri, segue dia 21 de julho para Roma e termina em Londres, dia 5 de outubro. "Minha obra trata sobre a violência no mundo e no Brasil. Espelhos quebrados sugerem a violência dentro de uma linguagem de transparência ao lado de 53 peças de resina, também transparentes, simulando partes do corpo humano, martelos, alicates, machados”, revela. Essa mostra comemorativa ainda não tem data para acontecer no Brasil.

 

Quizz com Siron Franco

 

Filhos: “Tenho uma relação ótima com todos eles, mas não fui aquele pai que levava o filho na aulinha de natação, de futebol. O artista é assim, é um pouco egocêntrico”

 

Inspiração: “Pode vir de um sonho, de um devaneio noturno. Cheguei a projetar uma praça chamada O Amor é Cego, fruto de um sonho com meu pai. A capa da revista Veja que fiz com o sociólogo Betinho foi de um rompante. Ia fazer ele derrubando um moinho de trigo e os grãos caindo como alimento, mas, à noite eu acordei e tive a ideia de fazer vários Betinhos no lugar dos grãos”.

 

Marketing: “Meu marketing deu certo porque só mexi com tragédia e a imprensa noticiava. Eu queria usar a arte junto com a imprensa porque eu acreditava que poderia reverberar aquilo de uma forma diferente”.

 

Goiânia: “Se todo mundo for embora daqui, como é que a cidade fica? Sempre quis produzir arte de Goiás para o mundo”.

 

Autocrítica: “Sou uma pessoa bastante autocrítica. Antigamente jogava peças foras. Hoje, vou soterrando elas, viro para a parede e depois encontro a solução que eu não estava pensando. É como um poema que você vai maturando”.

 

: “Acredito que existe o divino que é a paz, a sua conduta. Desde garoto eu sabia o que queria fazer, isso é a presença forte do divino em mim”.

 

Serviço

www.sironfranco.com


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