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Cinememória

COLABORADOR Larissa Duarte   
|   24/05/2017 07:00 ( atualizada 24/05/2017 07:00)   
FOTO Sérgio Lima   
Cineasta Vladimir Carvalho mantém viva a história do cinema brasiliense com casa-museu na W3 Sul

Olhando de longe até parece mais uma “casa geminada” comum na W3 Sul. Porém, analisando com um pouquinho mais de atenção, as particularidades da residência na 703 começam a aparecer. O portão lembra um fotograma, aquela impressão fotográfica de um filme. As janelas são redondas como rolos de negativos. Ao adentrar o local e ser recebido pelo anfitrião, fica evidente que tais formatos não estão ali por acaso. Tudo foi pensado pela mente cinéfila de Vladimir Carvalho. O paraibano de 82 anos é honrado como um dos mais importantes cineastas e documentaristas do Brasil.

Vladimir desembarcou na Capital em 1969 a convite da Universidade de Brasília para participar do núcleo de documentários do curso de Cinema. O rasante, que duraria dois meses, acabou estendendo-se por 47 anos. Nesse tempo, Vladimir sempre morou na Asa Sul. Perambulou pelas quadras 300, 400, 100, 200... Até que há 22 anos se instalou de vez na 703 Sul. O motivo principal da escolha do local foi a proximidade com a W3. “Eu vivi uma fase muito gostosa nessa via. Apesar de 'estar como está', a W3 é inspiradora para mim. Eu acredito e torço muito para que ela volte a ser uma via mais agradável. Morar aqui é uma militância, não saio por nada”, confessa.

Para o cineasta, a movimentada rua tinha tudo para ser a “via das artes de Brasília". “Acredito que a minha casa faz uma espécie de coadjuvação na W3, porque, tempos atrás, tudo por aqui era cultura. Havia cineclubes em todos os cantos, o extinto Centro Cultural Cassiano Nunes, teatros, sedes de emissoras de televisão. Era para a região ser arte viva até hoje”, afirma.



Casa-museu

Para qualquer visitante que recebe em casa, Vladimir faz questão de ser o guia turístico. A residência com 260m2 e com cerca de dez cômodos – número aproximado, porque os cômodos se misturam – é um museu do qual se orgulha de ter construído por mérito próprio. É, ao mesmo tempo, autointitulado morador e zelador. Até o futuro do local está planejado. Quando Vladimir já não puder cuidar de tudo que guarda ali, ele doará para a Universidade de Brasília. "Para que a instituição mantenha viva e preservada a história que eu ajudei a construir", conta.

A visita começa pela garagem. O espaço que comportaria dois carros é ocupado por fileiras de vitrinas com documentos que mantêm vivo os primeiros passos do cinema brasiliense, bem como os altos e baixos do cinema nacional. Tudo impecavelmente bem cuidado: documentos plastificados, livros enfileirados em estantes, vitrinas protegidas com vidros, equipamentos cobertos por panos para evitar a poeira... Diferentemente da maioria dos vizinhos, que substituíram a grama por cimento, Vladimir optou por manter a natureza do pequeno quintal.

Ao pisar dentro da casa é como se entrássemos num túnel do tempo. Não à toa Vladimir batizou o lugar de Fundação Cinememória. Nos primeiros expositores, guardam-se tesouros do segmento, como revistas de cinema de 1940, carteirinhas de sócios do Clube de Cinema de Brasília da década de 1980, o projeto original de criação do curso de graduação em Cinema da UnB e até certificados de censura de filmes dos anos 1970. Pendurados, cartazes dos primeiros festivais da cidade e de obras autorais, como o memorável O País de São Saruê de 1971, que ficou retido pela censura durante os anos da ditadura militar.

Completada a primeira parte do tour pela casa-museu, mais lembranças chamam a atenção no curto corredor que conecta a garagem à sala. Em um buraco construído na parede desse corredor, uma homenagem ao falecido Heinz Forthmann – importante fotógrafo e professor da UnB na década de 1970. Um rústico equipamento de cinema, uma espécie de moviola, que pertenceu ao artista, é exposto ali. Ao lado, uma porta com uma simpática placa escrita Salinha anuncia o pequeno cômodo – ocupado por apenas uma poltrona rodeada de livros. O local é uma extensão da biblioteca principal, equipada com centenas de títulos sobre cinema.

Na sequência da visita, se não fosse pela geladeira, quase camuflada em meio a pôsteres e livros, não diríamos que o cômodo da porta da direita do corredor é, de fato, uma cozinha. Estantes e mais estantes de livros invadem o cômodo até chegar à área de serviço. Voltando ao corredor, seguindo reto para a sala, uma exposição fotográfica relativa ao cinema de Brasília, e em parte o cinema nacional, decora as paredes brancas.

Com tom sempre empolgado e olhares nostálgicos, Vladimir relembra cada quadro de fotos, dos cem expostos. “É gostoso ter tudo isso fisicamente. Meus primeiros alunos da UnB, os primeiros filmes, visitas ilustres, meus grandes amigos e incríveis profissionais que já se foram... Aqui posso reviver tudo”, confessa. Em uma das fotos, Vladimir e sua equipe gravam as cenas do filme Vestibular 70, de 1970, que registra a preparação dos alunos para a primeira prova de vestibular da UnB.



Um dos cantos que merece destaque é dedicado cem por cento a Glauber Rocha, considerado o maior cineasta brasileiro. Neste espaço, fotos emolduradas e quadros que eternizaram momentos de Vladimir ao lado de Rocha. No chão, mais vitrines com objetos cinematográficos quase centenários, como câmeras, refletores, moviolas, mesas de montagens, além das dezenas de troféus. Da sala, um portão branco dá acesso ao jardim verde, adornado com dois grandes vasos – ou formas, como se diz no Nordeste – em referência ao filme Aruanda, de 1960, um curta-metragem sobre o artesanato de barro.

O roteiro continua voltando à garagem e pegando as escadas. “Não satisfeito em ocupar o andar de baixo, também coloquei cinema no andar de cima”, brinca Vladimir. Trinta poltronas idênticas voltadas para uma grande parede branca formam o auditório. Ou melhor, formam uma sala de cinema onde são exibidos filmes para grupos de alunos ou destinado a diretores interessados em exibir suas produções para um público específico. No fim do ano, como tradição, o espaço transforma-se em salão de festas para confraternizações. No restante do andar, cômodos ocupados por caixas de equipamentos e documentos, que não entram no roteiro de visitação. Apenas um cômodo de toda a casa conta com uma cama para o cineasta passar a noite.

Voltando à garagem, caixas e mais caixas de equipamentos cinematográficos em fila de espera para serem abertas. É lá que elas ficam guardadas enquanto Vladimir calcula se ainda há espaço para exibir mais recordações e relíquias.

Atualmente, Vladimir administra os compromissos para se dedicar ao seu próximo projeto. O diretor trabalha em um filme sobre a transposição do Rio São Francisco. Porém, ainda é cedo para sugerir uma data para o lançamento. Até lá, uma visita ao Cinememória fica como dica de programa aos cinéfilos de plantão da Capital.

Entre as obras mais prestigiadas de Vladimir Carvalho estão:

Cabra Marcado para Morrer (1984), ao lado do documentarista Eduardo Coutinho
Conterrâneos Velhos de Guerra (1991)
Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2000)
O Engenheiro de Zé Lins (2006)
Rock Brasília – Era de Ouro (2011)
Cícero Dias, o Compadre de Picasso (2016)

Serviço
Fundação Cinememória de Vladimir Carvalho
SHIGS 703 Bloco G Casa 73 – Asa Sul
Telefone: 3225-8680
Visitas agendadas 


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