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Avante, Moema

COLABORADOR Larissa Duarte   
|   14/05/2017 07:00 ( atualizada 14/05/2017 07:00)   
FOTO Celso Junior   
Em homenagem ao Dia das Mães, GPS|Brasília conta a história da matriarca da família Leão

O GPS|Brasília inicia suas homenagens ao Dia das Mães contando um pouco da história da matriarca de uma das famílias protagonistas da sociedade brasiliense. Mãe de Valéria, Francisco Flávio, Narciza e Vivianne Leão, Moema Leão tem seis netos no total, e, logo mais, ganhará o primeiro bisneto. Sobre ser uma boa mãe, ela questiona: “Qual o critério? Se for aquela que abandona a própria vida para viver em função de filho ou a que vai para cozinha fazer uma comidinha, então eu não fui bem-sucedida na função”, analisa, dizendo que ama ter os filhos por perto, mas nunca exigiu que eles fossem grudados. “Criei meus filhos para serem fortes e independentes. Não queria que eles tivessem medo de nada. O medo é inibidor”, conta. Eu sempre digo para eles, “gente, não deu tudo certo com vocês? Então façam do mesmo jeito que eu”, referindo-se à criação dos netos. “Mas eles nunca ouvem a gente, né?”. Com os netos, ela passa longe da imagem de vovó caseira. Para educá-los, prefere transmitir a sutileza herdada do pai por meio de palavras e atitudes que inspirem confiança.

“Moema é tapete vermelho”, definem amigos. “Uma estrela. Ela brilha”. É isso mesmo. Simplesmente, não se ignora Moema Leão. Ela jamais passará despercebida.  O sorriso é farto. A risada contagia. O tom de voz peculiar carrega a identidade goiana. Os naturais gestos elegantes se harmonizam com a postura expansiva. Ela adora gente. Em seu coração, não cabe preconceito ou julgamento. Moema é vida. A alegria se externa nas roupas de tons vibrantes ou na estampa preferida de leopardo ou onça. “Tanto faz, 
gente, eu adoro esse bicho”. Claro. Os óculos escuros imponentes são o charme à parte e a marca registrada de seu estilo, que não se encaixa necessariamente em nenhuma das mil e umas vertentes da moda. Joia? que nada! “Bijuteria com cara de bijuteria”. Grande, portentosa. Moema Leão é original. “Ela está a anos luz de nós”, complementam.

Ela honra o passado, não planeja o futuro e vive plenamente o presente. A matriarca da família Leão aceita de braços abertos o que vier. Nem mesmo o choque da notícia de um câncer, descoberto no início do ano, foi capaz de lhe abalar sua autoestima. “Sempre fiz do limão, uma limonada”, confirma. “O que for preciso fazer para ficar boa, eu vou fazer. Eu quero sarar logo, 
gente”, emenda, com vitalidade. “Ah, quer saber… todo mundo diz: ‘ihhh, o dia seguinte à quimioterapia você vai estar péssima, se prepara’. Eu hein? Não senti nada, cê pode acreditar num trem desse?”, diz num goianês sonoro. “Só Moema mesmo”’, diriam os amigos que a conhecem bem.


Da fazenda ao internato

Moema passou a infância ao lado dos quatro irmãos mais novos no interior de Goiás, em Rio Verde, onde nasceu, em 1946. Nessa fase, a intensa relação com o pai Valeriano ajudou-a a construir a forte personalidade. Fazendeiro de largas terras no interior, seu Valeriano amava festa. Seu aniversário integrava o calendário da pequena cidade. Não havia convite. A porteira ficava aberta, aguardando ônibus de convidados vindos em comboio de cidades vizinhas. “Era um caminhão de cerveja. E um, dois, três bois no rolete”, relembra. Ele, claro, via-se em Moema, “uma menina à frente do seu tempo”, como costumava dizer. ”Eu já nasci com espontaneidade no sangue, mas foi meu pai quem me deu segurança para continuar assim”, conta. Em vez de afagos, abraços, a relação foi construída com conversas, conselhos, olhares de consentimento ou reprovação.  “Meu pai me ensinou a não ter medo de enfrentar as coisas ruins da vida. É difícil alguma coisa me incomodar”, confessa.

Os estudos do ensino fundamental foram iniciados na escola pública da região. Mas, como era esperado, Moema não se adaptou muito bem. Estava fora da realidade social dos demais colegas. Era o alvo preferido de piadas entre eles. Não que isso desestruturasse sua autoestima, de jeito nenhum, achava graça até, mas seus pais e a escola deliberaram que ali não seria o melhor local para o seu desenvolvimento. “Moema não cabe em Rio Verde”. A escolha, então, foi mandá-la para um colégio interno em Goiânia aos 12 anos.

Diferentemente da maioria das alunas do Colégio Assunção, escola rigorosíssima onde a sociedade goiana estudava e aprendia também religião e boas maneiras, a ideia a encantou. Preocupados com a acomodação da filha no novo ambiente, seus pais fizeram questão de garantir o mesmo conforto que tinha em casa. Assim, itens para a hospedagem da moça chegaram ao internato antes dela, comprados nas melhores lojas da capital. Numerosas caixas marcadas com o nome da nova aluna desembarcavam de caminhões e despertaram curiosidade nas freiras, que recebiam o material abismadas. As estudantes, então, mal podiam esperar para saber quem era a menina do interior que antes mesmo de chegar já estava causando uma revolução na escola. “Tinha até colchão de mola, a grande novidade da época”, conta Moema, aos risos.

Quando finalmente deu-se o grande dia do início das aulas, ela foi anunciada aos gritos pelas alunas: “A Moema chegou! A Moema chegou!”. Foi uma correria. Adentrou os corredores da escola como se fosse passarela, com todos os olhares voltados para ela. Depois disso, nunca mais saiu dos holofotes do colégio. Tornou-se a garota mais popular. Moema adorava a vida lá dentro, mas gostava mesmo era de sair para desbravar a cidade aos finais de semana. Às vezes, nem esperava o sábado. “Eu arranjava tanta confusão para as freiras. Deixava elas doidinhas. Sempre tinha uma desculpa para sair da escola. Arrumava dor de dente, marcava médico. Eu queria mesmo era ir para rua”, lembra, gargalhando. Ela queria ver coisas novas. “Era impressionante, uma coisa, mas eu sabia de tudo”. 

A mudança

Aos 17 anos, Moema deixou o internato para casar-se com Flávio de Souza, empresário e um dos donos da construtora Encol, a maior do País até o final dos anos 1990. Eles se conheceram durante as férias escolares, em Rio Verde. Por coincidência, Flávio também estava por lá a trabalho. Assim que o viu, ficou encantada com sua pele bronzeada, o cabelo alourado. “Fiquei doida nele e ele doido comigo”. Namoraram por um ano e oficializaram a união.

Moema brinca que o dia do seu casamento foi “a coisa mais desorganizada que se pode imaginar”. Armaram uma festança daquelas na casa de seus pais, na cidade. Era gente… Para o jantar, nada de buffet, muito menos garçom. Os empregados vieram da fazenda cuidar de tudo. A ordem de seu Valeriano era apenas uma: ‘”Não pode faltar nada. Custe o que custar”. A atração da noite foi a banda da prefeitura, instalada na sala da casa com instrumentos musicais de orquestra. Foi uma farra. “Nessa desordem a festa fluiu que foi uma maravilha”, lembra. A lua-de-mel se deu pelo interior de Minas Gerais, onde residia a família do marido. “Eu tinha que ser apresentada a eles. Mas eu achava tudo bom”.



Na sequência, mudou-se para Goiânia com o marido. E foi aprendendo a ser mãe zelosa e esmera dona de casa. Aos 24 anos, havia nascido Valéria, Francisco Flávio, Narciza e Vivianne. À época, a jovem senhora já comandava a sociedade goianiense, mas Goiânia também ficaria pequena para Moema. Mal sabia que seu destino estava traçado e essas linhas se cruzariam com algo tão inovador quanto ela: a nova capital. Sua história com Brasília começou em 1971. Foi quando veio com a família para a terra prometida. Foi amor à primeira vista. “Quando eu cheguei aqui, fiquei boba, não conseguia acreditar. Na hora em que abri a janela do meu apartamento e vi aquele nada na minha frente, meu coração pulou. Mesmo vazia, achei Brasília uma maravilha. Foi a primeira vez na vida que me senti livre”, conta Moema. “Eu pensava comigo cada vez que via aquilo tudo em construção: ‘Não existe obstáculo, apenas possibilidades. Eu quero dominar isso tudo’”.

E foi o que aconteceu a partir daí. Não demorou, ela já conhecia a cidade inteira. A sociedade local, à época composta também por políticos, diplomatas, intelectuais, concentrava-se na Asa Sul e parecia ter encontrado a sua representante. Era em seu apartamento, claro, que se realizariam as primeiras festas sociais privadas. Boêmio, Juscelino Kubitschek logo ouviu falar de Moema. E tornaram-se amigos. “Todo final de semana encontrávamos com JK, ele adorava dançar. Fazíamos festas na fazenda dele e, de vez em quando, no nosso apartamento mesmo, na 111 Sul”, conta. Era no improviso. Arrastavam os móveis para o canto da sala e faziam um verdadeiro baile. “A gente se encontrava para dançar. Não queríamos conversar coisa nenhuma… só dançar”, explica.

A mansão

Os eventos fortaleceram-se após a mudança para uma casa na QI 5 do Lago Sul, quando o bairro iniciava a sua ascensão. As festas de aniversário, celebradas em março, estavam entre os eventos mais aguardados pela sociedade. Valéria, a filha mais velha, começava a adolescer e, assim como a mãe, amava amigos e celebrações. “Mas era festeira a Valéria… Teve uma que ficou na história. Ela disse que faria um encontrinho, coisa pequena só para os amigos… mas era tanta gente, tanta gente, na porta da minha casa, parecia show. Deu tudo errado. Briga, polícia… Eu estava jogando baralho na casa de amigos e tive que ir correndo socorrer o povo. Foi aí que percebi que precisava profissionalizar esse departamento na minha casa”.

Alguns anos depois, em 1982, seria inaugurada uma casa digna de tombamento. A Mansão Flamboyant, propriedade da família. No Park Way, o sofisticado Setor de Mansões. Num terreno de 20 mil metros quadrados, ergueu-se uma residência de 1,9 mil metros, onde se realizariam as mais grandiosas e memoráveis noites da capital. Em meio à farta flora do Cerrado, lago com carpas e flamingos, a família Leão de Souza dava início a uma década de muito glamour. Por lá passaram, Pelé, Roberto Carlos, Cauby Peixoto. A primeira-dama da ditadura, Dulce Figueiredo, era figura constante.

Moema amava noites temáticas. E todas deveriam ser hollywoodianas. Foi ela quem fez nascer o mercado de festas. Manobrista? Não existia. “Eu pensei… como as pessoas vão andar de salto nessa pedra e ainda sujar a barra do vestido…  tudo errado. E chamou o seu Divaldo, militar que também trabalhava no Iate Clube para criar a logística de estacionar carros. Foram noites sem dormir até surgir o formato usado ainda hoje. Resultado: Divaldo, quarenta anos depois, é a maior empresa do ramo na capital.  E assim se deu com salões de beleza, lojas de roupa… “Buffet eu mesma preparava em casa. Minha equipe de cozinha era ótima. Saia comida em série. Louça e prataria era uma coisa de tanto que eu tinha. Mandava buscar tudo no Rio de Janeiro. Decoração era eu também que fazia”, relembra.



Moema lançou os empratadinhos. “Imagina você se eu ia querer meus convidados sentados em mesa, só comendo. Era tudo no pratinho de sobremesa, pequenas porções. O povo ficava doido comigo”. Também foi dela a primeira adega em casa. “Descobri que era elegante beber vinho e champanhe. Mandei construir uma e busquei as bebidas mais chiques da época. Entupi a adega de Liebfraumilch, aquele vinho alemão da garrafa azul. Era de uma chiqueza, porque na época só se bebia uísque”. Uma das lendárias noites foi em 1990. Na véspera, Fernando Collor havia anunciado o confisco na conta bancária dos brasileiros. “Fui criticada, ameaçada, mas fazer o quê? Estava pronta a festa… só restava aproveitar. Eu assumi o risco e fiz mesmo assim. Foi ótimo”. Os filhos seguiram a mesma linha à exceção de Francisco Flávio, enviado a Londres para estudar nas melhores escolas. Narciza, por exemplo, não hesitou em contratar a banda Capital Inicial para cantar em seu aniversário de 15 anos. “Vou te contar que foi de festa em festa que nós fizemos muita obra social. Eu precisava de arrumar uma desculpa para fazer minhas celebrações, então achava uma instituição para ajudar. Eu construí uma creche na Ceilândia assim. Cê acredita?. Na verdade, eu fazia festa para mim, sempre gostei muito de receber as pessoas em casa”, entrega.

O trabalho

Mas faltava algo. Inquieta, Moema sentia que precisava começar um negócio. Com o empurrãozinho de uma amiga museóloga, decidiu apostar na venda de antiguidades. O marido Flávio, à época, mandou construir um chalé no terreno da Mansão, para o novo ofício. Foi sucesso entre as embaixadas e ali tornou-se o seu universo profissional. “As minhas amigas me ligavam para vir ver as peças. Eu preparava lanchinho, jogava conversa fora e elas não compravam nada. Comecei a me sentir enclausurada. Um dia, dei um ataque, surtei. Aos berros, eu dizia: ‘eu não aguento mais servir pamonha e ficar dentro desse chalé. Eu quero ir pra rua, ver gente’. O povo aqui em casa ficou apavorado. Mas foi assim que eu tive a minha primeira loja de decoração, a Casa Viva, na 111 Sul. Foi uma maravilha. Era referência na cidade”, conta. Em seguida, ainda dirigiu as lojas Síntese e Artefacto, na 210 Sul. Hoje, é sócia da mostra Casa Cor Brasília, o maior evento nacional de arquitetura e decoração. Nesse meio tempo, ainda, candidatou-se a deputada distrital e desenvolveu projeto de artesanato com as presidiárias da Colmeia junto à fundação que leva o seu nome. “Eu adoro. E ainda colaboro com muitas obras sociais”.

A transformação

Após 24 anos da união, Moema e Flávio se separaram. “Minha mãe estava sentada na cama, jogando Paciência, quando meu pai anunciou que ia sair de casa. Jogando ela permaneceu”, conta Vivianne, a filha mais nova, referindo-se à sua admiração pelo modo inabalável da mãe em lidar com a vida. Se foi doloroso o processo? “Quê, quê isso?… Eu entendi que aquele ciclo estava fechado. No dia em que ele saiu de casa para pensar na relação, eu virei a página. Nunca mais o aceitei de volta. Foi um escândalo, mas eu tava nem aí”, relata Moema. Rapidamente, ela deixou a residência e passou a alugá-la para festas. “Eu vejo a Mansão hoje e nem lembro que morei lá. Eu definitivamente não olho para trás”. Com os filhos criados e encaminhados, anos depois, Moema casou-se com o advogado Estênio Campelo e residiu na Asa Sul. Nessa época, dei os meus móveis para Valéria, que tem o mesmo estilo que eu”. E há onze anos mora no chalé da sua Mansão com o marido Celso Martins, empresário e esportista que vive para realizar seus desejos. “Não preciso de nada mais daquilo tudo. Que bobagem”.

Uma leoa

Aos 71 anos, nada nostálgica, Moema afirma que não mudaria nada em sua trajetória. “Fiz tudo o que eu queria e não me arrependi de nada. Nunca dependi de ninguém para seguir em frente. Eu me amo muito. Se eu não fizer o que gosto, não estarei feliz”, orgulha-se. Atualmente, Moema mantém ativa sua vida social e já trabalha no planejamento da CasaCor, em setembro. Mas nada de agenda repleta de compromissos. Ela adora não ter nada para fazer. “Tem gente que quando chega na minha idade só pensa em viajar o mundo, gastar o dinheiro que ganhou. Eu não. Eu gosto mesmo é de ficar na minha casa, na minha Brasília. É isso que me tem feito feliz. E quer saber? Dinheiro é bom, sim, bem guardadinho, em espécie, para quando a vida te der um susto você não precisar pedir para ninguém. No mais, é tudo uma grande bobagem”, finaliza a mulher que sabe demais. Quanto aos herdeiros desse imenso legado que Moema vem ofertando para a sociedade brasiliense, uma frase sempre dita por amigos a suas filhas diante de alguma situação complexa, comprova a eficiência de sua jornada ao longo dos cinquenta anos dedicados a Brasília: “Veja bem, você é uma Leão”.



 


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