GPS | COTIDIANO

Sim, elas podem!

O lugar da mulher é onde ela quiser. Coletivos atuam pela representatividade feminina no hip-hop, no circo e na literatura

“Qualquer combate ou luta; peleja”. Se pesquisarmos a palavra “batalha” nos dicionários, encontraremos definições parecidas com essa. Quando o assunto é o histórico da batalha das mulheres pelos seus direitos, as palavras “combate” e “luta” se encaixam perfeitamente. A peleja na busca por representatividade política, social e cultural em um mundo machista é diária, mas isso só quem é mulher sabe. No campo da arte, elas usufruem da liberdade de expressão como instrumento de empoderamento para reforçarem sua presença na cena, seja ela com um microfone na mão, por meio da leitura ou em picadeiros.

No Distrito Federal, um grupo de “gurias” duelam entre si para preencher o seu espaço em um cenário ainda predominado pela visibilidade masculina: o hip hop. Assim como toda luta, a Batalha das Gurias, ou apenas BDG, também tem uma condecoração a ser alcançada, mas não é a ocupação do território do oponente. Muito pelo contrário, é fazer parte dele. Composto por estudantes universitárias, o grupo surgiu em 2013 com poucas meninas que se destacavam na Batalha do Museu, uma batalha de rimas predominada por MCs homens que costuma movimentar os arredores do Museu da República nos domingos. “Muitas minas não tinham vontade de batalhar com os manos, pois sabiam que teria que enfrentar rimas machistas. É muito ruim você querer batalhar, mas não se sentir confiante o suficiente para enfrentar um homem”, explica a integrante MC Camila, de 22 anos, sobre a formação do BDG.



Um dos objetivos da Batalha é acolher minas que desejam participar de um duelo de rimas e prepará-las para enfrentar qualquer “rival”, seja homem ou mulher. “Ainda tem menina do grupo não se sente à vontade em batalhar com homem, mas na verdade é muito fácil bater de frente com a maioria deles por possuírem argumentos muito repetitivos”, conta MC Bah, de 22 anos. Segundo ela, o jogo de palavras entre minas é de igual para igual: “Não importa se naquele momento adversárias, na vida nós passamos pela mesma coisa, independente da nossa cor, roupa, cabelo… Andar na rua às 22 horas é o mesmo sentimento”.

Por parte dos MCs, ainda é predominante o pensamento de que “vai ser fácil ganhar, é apenas uma menina”. Porém, as integrantes do BDG contam no vídeo acima que, aos poucos, estão observando a mudança de comportamento e argumento dos manos na hora de “enfrentá-las” na rima. “Os machistas estão sendo criticados pela plateia da batalha, ninguém mais aplaude o clássico ‘vou comer sua mãe e sua tia’”, conta MC Lorak, de 22 anos. “É, ainda tem muitos que falam bosta, muitos. Mas é evidente de que isso está entrando na cabeça deles”, logo completa MC Lis, da mesma idade.

O recado está dado, elas estão entrando e chutando a porta. “Eles podem não querer nos mostrar, mas nós vamos nos mostrar. Na minha infância, rap era ‘coisa de homem e bandido’, nós estamos ajudando a desconstruir isso”, afirma MC Marciana, de 21 anos.

No picadeiro

Assim como a capacidade de rimar, a aptidão da mulher para ser engraçada também é questionada. Em 2012, Manuela Castelo Branco, de 40 anos, mais conhecida como a palhaça Matusquela, fundou a CiRcA Brasilia, um espaço de protagonismo feminino. Aberto para cantoras, atrizes, poetisas, diretoras, escritoras, bonequeiras, iluminadoras, artistas plásticas e, sobretudo, palhaças.

A CiRcA é um picadeiro diferente de tudo o que já se viu. A mulher não é coadjuvante, muito menos assistente de palco ou algo assim. Com quase 20 anos de palhaça, Manuela conta que a invisibilidade de sua profissão era enorme há alguns anos atrás. “Em festas de aniversário, me falavam ‘você não pode ser palhaço, você é uma mulher’. Para ela, não existia a figura de palhaça no imaginário infantil. “Embora nós não nos conhecêssemos, havia muitas palhaças. Eu achava que estava sozinha, mas a verdade era que todas se escondiam, com a autoestima baixa, enquanto sua qualidade cômica era questionada”, lembra.


Thiago Sabino

Hoje, Manuela acredita que houve uma abertura no mercado. Com o festival Palhaças do Mundo, também um projeto dela, a visibilidade das palhaças aumentou. “Nos festivais, nós mostramos que a palhaçaria feminina não é feita só de comicidade. Temos um posicionamento muito crítico. Queremos o mesmo cachê de palhaços e queremos ter a nossa pesquisa reconhecida”.

No evento há o debate chamado Palhaças em Tese, encontro no qual as palhaças apresentam as publicações acadêmicas e estudos realizados sobre elas com o objetivo de deixar o rastro dos seus trabalhos. “Nós não saímos do circo, fomos até ele. Palhaças se apresentaram escondidas, muitas vezes até travestidas de homem. É importante deixar eternizado a luta que enfrentamos apenas por sermos mulheres”, reforça Matusquela.

Em páginas

A busca pelo aumento do reconhecimento feminino se expande também para a literatura. Criado para incentivar a leitura de poetisas, o grupo brasiliense Leia Poetisas foi inspirado no projeto nacional Leia Mulheres, no qual interessadas e amantes de livros de várias regiões do Brasil se unem para fortalecer o espaço da mulher no universo literário. “Quando perguntamos qual poeta mulher as pessoas mais gostam, elas raramente sabem responder, caso saibam, não se lembram do nome. As mulheres não foram estudadas”, afirma uma das fundadoras do grupo brasiliense, Patrícia Colmenero.

Segundo as integrantes do grupo, que se encontram uma vez por mês para discutir a obra de uma autora, os livros de uma poeta não são bem divulgados e muitas vezes nem publicados pelo fato da mulher ser vista como ruim na literatura. Para Patrícia, o grupo de leitura é uma forma de resistência. Vale lembrar que, durante anos, as mulheres chegaram a ser proibidas de escrever. Logo, encontrar obras produzidas por elas é sempre um prestígio. “Há livros interessantíssimos que gostaríamos de discutir, mas não conseguimos encontrar nas livrarias”, diz.



O grupo, em sua maior parte formado por mulheres, se reúne em ambientes culturais da cidade uma vez ao mês. “Já fizemos no jardim do CCBB e agora procuramos cafés que têm ligação com cultura”, explica Patrícia. Uma vez juntas, leem seus trechos favoritos, comentam sobre interpretações, a poeta da vez e até riem e contam histórias. Apesar dos encontros mensais, o ar de amizade e sororidade emana de cada verso escrito pelas poetisas nas vozes das leitoras.

Todos são bem vindos, incluindo homens. “Normalmente nós temos um ou dois, mas é muito legal tê-los aqui também, é importante”, comenta a fundadora. O clima de amizade é tanto que muitos interessados vão, mas não chegam a se sentar junto da roda. “As pessoas ainda têm vergonha! Ficam rodeando, escutando e muitas vezes vão embora sem falar nada”, revela. A organização do encontro garante: não é preciso entender de poesia, ser feminista ou qualquer outro pré-requisito. “Basta só ter interesse e chegar junto”, convida Patrícia.

 


Todos os direitos reservados - 2014
Política de Privacidade
Termos e Condições
Anúncie Conosco:
SHIS QI 05, Bloco F, sala 122, Centro Comercial Gilberto Salomão
CEP 71615-560 - Brasília - DF - Brasil
Telefone: +55 (61) 3364-4512 | Email: info@gpsbrasilia.com.br
{slideshow_baner}