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O autêntico Candango

Admirado por Athos Bulcão, Luiz Costa é o grande muralista do País. Da vida dura no Vale do Jequitinhonha, ele veio zelar por obras de artistas e tornou-se um deles

Bem ao lado da residência de veraneio do presidente do Brasil, a conhecida Granja do Torto, mora numa casa de muro sem portão um Comendador da República. Ele não é político, não tem cargo público, não possui função administrativa, mas ajudou a construir o futuro intelectual da Capital do País.

Luiz Costa é um dos maiores nomes do construtivismo brasileiro. Nascido na Serra dos Aimorés, filho do meio de 12 irmãos, conheceu cedo as mazelas do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Em Brasília, sucumbiu à arte e com coragem decidiu viver dela, encorajado por seus mentores: Athos Bulcão e Alfredo Volpi.

À espreita da porta, ele nos espera para a entrevista, de jaleco sujo de tinta, e se revela um típico pintor. Com 61 anos, mantém-se o mesmo apaixonado pela forma, pela cor e pelos grandes mestres. Aguardava-nos com um livro na mão e nem bem esperou que nos sentássemos para começar a declamar poemas de Henri Matisse.

“Grande coisa é o amor, é um bem imensamente grande, o único capaz de tornar leve o que é pesado, e suportar com igual alento o que é desigual, porque transporta o peso sem que seja um fardo e torna saboroso e doce o que é amar”, disse. Luiz Costa aparenta se perder nas palavras. Parecem ter brotado de sua mente.

O amor sempre esteve presente em sua obra. As mulatas de Di Cavalcanti ou as bandeirinhas de Volpi. O Candango, sua mais notória obra, muitas vezes incorpora personagens e surge como Lampião e Maria Bonita. Mas podem ser ele e Conceição ali encarnados, sua companheira há mais de 40 anos e mãe de seus dois filhos: Luís e Marina.

“Avistei Ceicinha numa parada de ônibus. Desconcertado por sua beleza, peguei um pedaço de fósforo molhado, risquei num papel o meu telefone e entreguei a ela. Amor à primeira vista”, recorda. Foi nos braços de Ceicinha que Luiz Costa encontrou o apoio para pintar. Ao longo do percurso, deparou-se com figuras que o encorajaram a seguir adiante, como Darcy Ribeiro a Fernando Henrique Cardoso, grandes entusiastas do artista. Mas como não ser? O jovem que começou limpando quadros numa galeria de arte da cidade é hoje o maior muralista vivo em volume de obras do Brasil.



A carreira


Um garoto que adorava colecionar revistinhas em quadrinhos e trocá-las na porta das matinês. Luiz Costa tinha os olhos curiosos, mas aprendeu a ler tarde, aos 12 anos. “Depois de grande, percebi que falava diferente dos outros meninos. Eles diziam: ‘Deixa eu ver se esta revistinha eu já li’. Eu dizia: ‘Deixa eu ver se esta revistinha eu já vi”’, relata com a destreza de um mineiro contador de história.

“A linguagem visual tomou conta da minha pequena intelectualidade antes de tudo”, rememora o artista autodidata, que só estudou até a quarta série do primário. “Nunca me esqueci do primeiro livro que ganhei. Pedi para lerem o que estava escrito na capa e me disseram: Picasso para Colorir”.

Aos 13 anos, o menino pegou um ônibus rumo a Brasília, junto com sua família, em busca de uma vida melhor. Foi a primeira vez que calçou um sapato e viu o asfalto deslizando sobre o Planalto Central. Dormiu ao relento, fez bicos para ganhar dinheiro. Mas por obra do destino acabou caindo no endereço que foi a porta de entrada para o seu futuro na vida: a galeria Oscar Seraphico.

“Se Brasília conheceu Volpi, Di Cavalcanti, Waldemar Cordeiro, Francisco Rebolo, foi Seraphico quem os trouxe. Era um homem polido, oficial de chancelaria, viajava o mundo e filtrou muita coisa”, destaca. Luiz Costa trabalhava na conservação do espaço. Tirava com cuidado a poeira sobre os quadros, limpava com carinho as molduras, sempre admirando cada obra. Conviveu com todos eles. Lá, costuma dizer que fechou a boca, abriu os olhos e arregalou os ouvidos.

Sua astúcia o fez elo entre colecionadores, pintores e o próprio Oscar. “Era menino novo e levava cafezinho para os artistas. Ouvia muito sobre suas histórias”, lembra. Mas a vida tem suas idiossincrasias. O menino zelador se revelou um dos maiores muralistas do País. “Athos Bulcão elegeu Luiz Costa o artista plástico que mais representou a cidade em sua geração”, endossa Celina Kaufman, curadora de arte e representante do artista na sua galeria Art & Art Galeria, no Lago Sul.

O início da carreira de pintor contradiz a cronologia de um artista. Poderia ser uma história lida de trás para frente. Costa começou ganhando prêmios. Enquanto trabalhava na galeria, pintava, seguindo a orientação dos artistas. Dali surgiam retratos e paisagens. “Primeiro você tem que ter a natureza das formas em mente, antes de criar algo”, diz. Autocrítico, o pintor sentia vergonha de mostrar o que fazia. A saída foi inscrever-se no primeiro salão – data de 1981.

As primeiras pinceladas no prêmio lhe renderam de imediato o primeiro lugar no Salão das Cidades Satélites, ao pintar a Igreja de São Sebastião, no Gama. Em seguida, ganhou o primeiro lugar no Salão do Centro-Oeste, com a Igreja Nossa Senhora de Fátima, da Asa Sul. Ao total, 34 prêmios ao longo da sua trajetória.

O momento crucial na carreira aconteceu em 1987 com o Salão Nacional de Brasília. Na mesa dos jurados, nada menos que Olivio Tavares, Athos Bulcão e Gracie Maria de Freitas, professores da Universidade de Brasília. Todos lhe concederam o primeiro lugar. Foi a partir daí que Athos Bulcão passou a ser um expectador de sua obra.

“O mestre tem faro. Muita gente começou a pintar naquela época, mas ele percebeu que o tempo passava e eu seguia, vivendo da minha obra. Alguns desistiam para tornar-se servidores públicos. E eu fiquei ali, convivendo com figuras como Alfredo Ceschiatti”. Construtivista, Luiz Costa consagrou-se pela forma puramente plástica e linear. Técnica do movimento Bauhaus, a escola dos modernistas.

"O alicerce da minha obra é Brasília. Eu sou construtivista. Sou admirador do pintor uruguaio Torres Garcia, que é o pai dessa linha na América Latina. No Brasil, temos artistas como Volpi e o maior muralista do mundo moderno, que foi Athos Bulcão. Não tive como fugir", complementa.

Do tempo da efervescência cultural na qual viveu Brasília, Costa lamenta o fim dos salões. O último foi o que o premiou, com o voto minerva de Bulcão, cujo encontro se deu inesperadamente momentos antes no corredor. “Ele olhou bem nos meus olhos como se dissesse: ‘Meu voto será seu’”, recorda. E emenda: “Em nosso último contato, ele já estava bem debilitado. Foi triste vê-lo”.

Ao falar de morte, Darcy Ribeiro entra no cerne da conversa. Certa vez, o antropólogo, político e fundador da UnB, disse que estava com medo de morrer. Luiz Costa o aconselhou a não temer, pois ele já havia deixado um legado inenarrável. Ribeiro, que já era Senador na época, rebateu: “Troco meu passado pelo seu futuro”.

O pintor chegou até ele a pedido de Vera Brant, uma dama da sociedade, amiga de intelectuais que promovia a cena cultural da Capital. Ribeiro queria um quadro que Costa havia pintado para a embaixada da Espanha, em homenagem os 500 anos da América. A obra ficou no escritório de Ribeiro até a sua morte.

O pintor fala com modéstia, mas os títulos que carrega endossam o seu talento. O primeiro prêmio internacional foi no Salão da Bulgaria, com uma fase chamada Engravatados, inspirada na Brasília executiva. Foi dali que surgiu o Candango, seu maior trunfo, pois, na pintura, um dos feitos mais difíceis é desfigurar a figura humana. “Aos poucos, ela foi se diluindo, ficando terna, serena, restando só a poesia” acrescenta.

Em 1999, ele recebeu a Ordem do Mérito Cultural, por meio intermédio do ex-governador de Brasília Joaquim Roriz. Em 2002, Luiz Costa recebeu das mãos do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso o título de Comendador da República. “Esses dois homens colocaram a medalha no meu peito”, enfatiza.

As premiações não param. Recebeu o título de Cidadão Honorário de Brasília pela Câmara Legislativa do DF e o título Cervantino de Honor pela Espanha. Sua obra está no Supremo Tribunal Federal, no Instituto de Cultura Hispânica, no Museu de Arte de Brasília, em prédios comerciais, como o América Office Tower, no Setor Comercial Sul; no prédio Paulo Octavio, no Setor Comercial Norte; no Edifício Number One; e no escritório de Advocacia Barros e Barreto.

Há, ainda, uma infinidade de murais, quadros menores, pequenas gravuras, esculturas em metal em seu ateliê. Ultimamente, tem pintado animais gigantes que um dia desaparecerão, como o elefante e a baleia.  O artista sempre viveu de sua obra. Não fez fortuna, mas graduou dois filhos: uma em Letras na Universidade de Brasília (UnB) e outro em carreira pública no Tesouro Nacional. Costa ainda deu para a mãe, com 91 anos, uma casa, conforme promessa de tempos atrás.  “Certa vez, estava reclamando de dinheiro com um amigo e ele me disse uma coisa interessante: ‘Luiz, rico você já é. Você só não é endinheirado”’, relembra, rindo de si mesmo.



A Biblioteca

“Lembro quando Darcy Ribeiro comentou comigo que as pessoas não estavam passando para frente o conhecimento. Por isso ele trouxe nomes como Glênio Bianchetti e Rubem Valentim para dar aula na UnB”, conta. Naquele tempo, Brasília, que era a síntese do Brasil, desconhecia livros sobre arte brasileira. “A pintura, especialmente, era pouco reproduzida. Começou timidamente na década de 1980”, contextualiza.

Hoje, a biblioteca de Luiz guarda dez mil volumes sobre o tema. Ficou cerca de 25 anos mirradinha, até chegar do Rio Grande do Sul o procurador Ricardo Vieira Orsi. “Ricardo começou visitando o  ateliê para comprar arte. A conselho do seu pai, frequentava o ambiente de trabalho do artista, porque sabia que ali conseguiria as melhores obras. Certo dia, avistou a biblioteca e perguntou se poderia ajudar. Foi muito bem-vindo”, conta Costa. Ainda hoje, a cada viagem que faz, Orsi traz livros para doar. Na biblioteca, Luiz Costa dá palestras para crianças de escolas públicas e particulares. “Começo perguntando a elas o que é mais sagrado no planeta. Elas ficam um tempo pensativas e eu digo: ‘É a mãe. Depois, o pai, a professora e o coleguinha que está ao lado’”.

De fala mansa e olhar que sorri, ele dá enredo à sua história, sem compromisso com o tempo. E reflete, tal qual o regionalismo do conterrâneo Guimarães Rosa, a mítica da realidade: “Falo muito para Ceicinha uma coisa que absorvi dos mestres. Vamos envelhecer longe da malícia e perto da inocência. Para não sermos seres duros, nem perdermos a graça da vida”, diz o artista que em seguida oferece um cafezinho com pão de queijo. Assim são os grandes mestres. Vivem da simplicidade, o mais próximo degrau da sabedoria.

 


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