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Em marcha

Com duas premiações internacionais e cinco vezes campeão brasileiro, o brasiliense Caio Bonfim é a maior promessa do Brasil na Marcha Atlética. Ele tenta hoje sua primeira medalha olímpica

As famosas pernas tortas de Mané Garrincha não o impediram de ir longe no esporte. Foi um dos mais importantes jogadores de futebol do Brasil. Em Brasília, dá nome ao nosso estádio. Há mais de 20 anos, a 25km dali, em Sobradinho, um menino com o espírito esportivo no DNA quase viu seu futuro ser ameaçado por um problema parecido: as perninhas tortas por conta de uma deficiência de cálcio, que o obrigou a passar por uma cirurgia corretora aos dois anos. Nenhum médico na época imaginou que ele seria um atleta.

 

Ao observar as pernas de Caio Sena Bonfim, hoje com 24 anos, ainda é possível ver, bem sutilmente, que não são totalmente retas. Nada que atrapalhe a execução perfeita da técnica da marcha atlética. Apesar de ter treinado futebol dos seis aos 16 anos – chegou a jogar nas categorias de base do Brasiliense e, quem sabe, seguiria os passos de Garrincha –, resolveu há oito trocar a bola pelo atletismo. Largou o esporte que é a paixão nacional para se aventurar por algo ainda pouco conhecido dos brasileiros. E fez a escolha certa. A criança que teve dificuldades para andar, tornou-se o número um do Brasil na marcha atlética e lidera o ranking sul-americano.

 

Hoje (12), às 14h30, Caio executará sua técnica na prova de 20km da Marcha Atlética nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Na semana que vem, dia 19 de agosto, ele compete na categoria de 50km. “Eu não trabalho com expectativa, prefiro dizer esperança. Nunca fiz uma preparação de base [o período antes das competições] tão intensa. Chego ao Rio com mais maturidade”, acredita o atleta, que, em Londres, em 2012, ficou em 39° lugar.

 

O Brasil não tem tradição no esporte, mas, em 2015, Caio teve duas conquistas que o colocaram em evidência. Primeiro, a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá, quando quebrou o jejum de 24 anos sem pódio do País na competição – a última tinha sido o bronze do paulista Marcelo Palma, em 1991. Em seguida, ficou em sexto lugar no Mundial de Pequim, igualando-se ao catarinense Sérgio Galdino, em 1993.

 


 
Equipe


 
Apesar de ter trocado um esporte coletivo por um individual, Caio Bonfim tem com ele um verdadeiro time. Cada conquista do atleta representa o esforço de uma família inteira. É que seu treinador e técnica são, respectivamente, seu pai, João Sena, e sua mãe, Gianetti Sena. “A cobrança existe, afinal, eles estão vendo meus passos 24 horas por dia. Mas, para mim, é um honra. Somos um time”, orgulha-se. Caio conta ainda com a torcida do irmão, o jornalista Evam, de 29 anos.


 
Na sala da casa da família, há inúmeros troféus e medalhas da ex-atleta Gianetti, que por 12 anos foi marchadora e chegou a ser oito vezes campeã brasileira e uma vez campeã sul-americana. “Minha mãe nunca foi desqualificada na parte técnica. Ela sabe o que está fazendo”, elogia o filho. Foi por influência dos pais que ele resolveu fazer um teste no esporte, em 2007. “Com um mês de marcha, eu já estava no mundial. Descobri que era bom nisso. Tudo aconteceu muito rápido”, lembra o atleta, que já foi cinco vezes campeão brasileiro, levou três vezes o Troféu Brasil de Atletismo, é bicampeão Sul-Americano e campeão e vice-campeão da Copa Pan-Americana de Marcha Atlética. As medalhas dessas conquistas ele exibe em um quadro na parede do seu quarto, em sua casa em Sobradinho, onde mora com os pais e o irmão.


 
Hoje, a mãe dedica-se à carreira de Caio. “Eu não fui só atleta. Fui mãe, dona de casa, advogada. Talvez por tantas atividades não tenha ido mais longe. Um atleta precisa se dedicar. Por isso, procuro proporcionar ao Caio a maior tranquilidade possível, para que ele se concentre no atletismo”, acredita. Enquanto Gianetti se atenta à parte técnica, Sena se preocupa com a estratégia. Optou, por exemplo, por levar Caio para competições na Europa. “Para aprender a marchar como eles, pegar o macete da arbitragem europeia. É isso que faz a experiência do atleta”, afirma Sena.


 
Treinos intensos


 
Para as competições, Caio treina no Estádio Augustinho Lima, em Sobradinho. É na cidade que ele nasceu, cresceu, treina e vive. Sua rotina é desgastante. Treina de segunda-feira a sábado. Três vezes por semana no estádio e outras três na rua, sempre ao ar livre, debaixo do sol quente. “No calor é mais sofrido, mas nos coloca à frente dos europeus, que sofrem com as altas temperaturas”, acredita. Os treinos incluem exercícios técnicos, condicionamento físico e o percurso de 28km a 30km. Tem que ser rápido e, para isso, precisa ser magro. Hoje, Caio está com 63kg distribuídos em 1,74m. Em época de competições, chega aos 59kg. Mas isso não significa comer pouco. Sua dieta é de 4.500 calorias por dia. “Preciso de energia”, confessa.


 
Caio é muito dedicado ao esporte. Fora os treinos, leva uma vida tranquila. Está de casamento marcado com Juliana Ribeiro, de 22 anos, sua vizinha e amiga desde a infância, para novembro. “Depois das Olimpíadas”, diz. Evangélico, os domingos de folga são dedicados à igreja. Não é de farra, nem de beber. Prefere um encontro com os amigos em casa ou para sair para lanchar. Gosta de dormir cedo. “Estou sempre cansado”, brinca. O jeito tímido é quebrado após um pouco de conversa. “Sou falante e brincalhão”, garante.

 


 
Popularização


 
Nas ruas, não tem um dia sequer que não seja alvo de uma piada. “Vira homem” e “para de rebolar” estão entre as mais ouvidas. No esporte, o atleta não pode tirar os dois pés do chão ao mesmo tempo e, por isso, a movimentação do quadril faz com que pareça um “andar rebolando”. “Hoje recebo mais incentivos do que xingamentos em Sobradinho, mas todos os dias tem uma piadinha. Infelizmente, esse é o normal. Acho que pela falta de conhecimento do esporte”, lamenta.


 
Caio recebe uma ajuda financeira da Confederação Brasileira de Atletismo e o Bolsa-Atleta, da Secretaria de Esportes. “Ainda preciso também de um ‘paitrocínio’”, brinca. Ele tem ainda grandes parceiros: nutricionista, massagista, ortopedista e fisioterapeuta.


 
No Brasil, os maiores atletas do atletismo treinam em São Paulo e no Rio de Janeiro. Segundo Caio, ele já foi sondado para mudar, mas não quis. “Em São Paulo eu vou ser só mais um. A imprensa de Brasília não vai me ver, nem a de lá. Ficando aqui, as pessoas sabem quem sou. Não posso dizer que nunca vou sair daqui porque não sei o que me espera, mas é muito difícil”, afirma.


 
A vida útil de um atleta da marcha é, normalmente, até os 33 anos. Mas há casos de profissionais que competiram até 38. “Acho que posso ir até os 40 anos. Meu objetivo é uma medalha olímpica. Se não for agora, tenho umas três olimpíadas para tentar. Se não der, a gente traz outros bons resultados, que podem até ser melhores, como a popularização do esporte”, afirma. Formado em Educação Física, naturalmente deve seguir os passos dos pais e treinar outros atletas.


 
Caio é mais que um atleta, um exemplo de superação e equilíbrio emocional. Enfrentou – e enfrenta diariamente – inúmeros obstáculos. A força, segundo ele, está na sua fé. Se temos na história do esporte um “anjo de pernas tortas”, como ficou conhecido Garrincha, no atletismo, as pernas ainda um pouquinho tortas de Caio Bonfim podem trazer para o Brasil muito orgulho no esporte. Vamos torcer.


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