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Apreciar o belo

COLABORADOR Raquel Jones   
|   14/01/2016 14:14   
Os homens cada vez mais se descolam da imagem clássica viril e incorporam cores, shapes, estampas. Um deles? O 007

Eles já provaram que gostar de moda não é coisa de mulher. O homem de hoje usa pulseira, colar, lenço e bolsa de mão. Ousar para o gênero não significa apenas vestir camisa florada ou na cor rosa. 2015 foi o ano em que eles levantaram a bandeira contra o sexismo na moda. Ser fashion não é coisa de “homo” nem de “metro”. É coisa de homem e com H maiúsculo.

 

Não faz muito tempo que Domenico Dolce e Stefano Gabbana vestiram seus modelos na passarela com peças decorativistas, a exemplo das jaquetas sukajan. De origem japonesa, elas são rebordadas em cima do tecido, carregam brilho, desenhos de flores e muita cor. Na mesma temporada, foi a vez da Gucci usar pulseiras e anéis em todos os dedos dos seus modelos, incluindo o indicador; Giorgio Armani não dispensou lenços amarrados no pescoço e maxi bolsas de mão nos looks masculinos; já a Fendi trouxe mochilas de píton, com direito a chaveiro de pom-pom pendurados, uma versão macho da sua it bag clássica, a bolsa peekaboo. Essas novidades foram apresentadas às passarelas em 2015, durante o Milão Fashion Week Menswear, semana de moda dedicada ao gênero

 

O que se viu lá fora confirma uma tendência que vem se desenhando há alguns anos, mas eclodiu com força total nos tempos atuais. Há dois anos, o IBOPE divulgou uma pesquisa em que revela que os homens brasileiros frequentam shopping centers na mesma frequência que as mulheres, cerca de cinco vezes por mês. De acordo com o Instituto inglês de pesquisas MarketLine, em 2014, estima-se que a moda masculina mundial alcançou USD 402 bilhões. No Brasil, a previsão é que o mercado de moda masculina cresça de USD 18 bilhões, em 2013, para USD 23 bilhões, em 2017.

 

O homem vaidoso, na verdade, já existiu há quatros séculos. De acordo com o coordenador do curso de Design de Moda do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) e consultor acadêmico da CENAATUAL, Marco Antônio Vieira, a imagem da roupa masculina ficou por muito tempo congelada, numa espécie de reação traumática a era aristocrática, pós Revolução Francesa, no final do Século XVIII. “A moda era ditada pelos aristocratas, não havia muita distinção entre a roupa feminina da masculina. O homem usava seda, brocado, peruca, salto alto. Quando a aristocracia francesa cai por terra, surge a possibilidade de um novo sujeito que é um homem batalhador. Os homens passaram a adotar essa aparência mais austera, mais discreta”, contextualiza Vieira.

 

Esse novo homem encontraria na aristocracia rural inglesa a inspiração para o seu vestuário. “Nas propriedades rurais, eles precisavam de roupas que não sujassem muito, feitas para que se pudessem caçar. Assim surgiu a alfaiataria inglesa. Eram peças não decorativas, mas que tinham funcionalidade”, complementa Vieira. O estilista Alexandre McQueen foi um grande discípulo desta moda austera, sendo doutrinado por uma dessas casas de alfaiataria inglesa. “Quando foi para a Givenchy, ele explorou muito esse lado”, destaca Vieira.

 

 

Porém se, de um lado, McQueen trazia essa influência do homem comedido, muitos outros estilistas marcaram o retorno da figura masculina mais flexível. As grandes maisons francesas estão contratando atores heterossexuais para suas campanhas. Recentemente, Johnny Depp foi escolhido para ser o homem propaganda da nova fragrância da Dior e o tenista Rafael Nadal estrelou a campanha da americana Tommy Hilfiger, em que aparece nu.

 

Toda a cultura contemporânea vem contribuindo para a imagem desse novo homem. O jogador de futebol David Beckham é um exemplo de um homem heterossexual que tem uma família e que também se identifica com uma imagem de moda.

 

O fato é que eles não querem mais se sentir excluídos desse universo. “Hoje, nós temos o Kadu Dantas que é um blogueiro com mais de cem mil seguidores, por exemplo. Nós temos nomes como Alexandre Taleb, falando de moda masculina”, acrescenta Vieira.

 

Apesar do grande passo com relação ao consumo e a aparência do homem, o Brasil ainda engatinha nesse quesito. A identificação com esses movimentos da moda pode apresentar uma “ameaça” à virilidade do homem. Basta observar nos eventos da elite, eles continuam uniformizados, o máximo que se vê de diferente é um relógio mais caro ou uma caneta, itens que não estão ligados à roupa.

 

“Aos poucos, o homem vai tendo esse vocabulário ampliado. A figura do Dândi, o homem que se preocupava com a aparência, para um homem heterossexual brasileiro é ainda algo muito inacessível dentro de uma realidade em que as próprias mulheres vão julgar. Mas essa lógica começou a mudar nos últimos tempos, o homem já precisa ter uma aparência jovem e bem cuidada para o mercado de trabalho, em algumas situações, por exemplo, se ele tiver uma marca grifada, ele terá uma respeitabilidade maior”, finaliza Vieira.

 

 

Bond, o percussor

 

Se hoje o homem consegue carregar no vestuário, não se pode negar que um ícone do universo cinematográfico deu o start para tal, mesmo que no inconsciente coletivo de seus fãs. James Bond, apesar da imagem de um agente secreto britânico, foi um dos primeiros a levantar o lema da vaidade tanto na beleza quanto no vestuário. Relógios, gravatas borboletas, suspensórios, óculos e ternos cortados impecavelmente compõem o figurino do personagem idealizado pelo escritor Ian Fleming.

 

“Bond é a própria materialização do luxo”, disse Tom Ford, estilista que assina o figurino do agente secreto que será vivido por Daniel Craig no novo filme da série, 007 contra Spectre. Seu vestuário passa pelo afeto ao relógio Ômega, pelas jaquetas esportivas, os blazers e camisões. Muito além do figurino, o objeto de desejo pelo carro Aston Martin e a sua predileção pelo Dry Martini colocam James Bond num patamar de homem real que, como todos os outros, cultivam um caso de amor com seus “brinquedinhos” eletrônicos e com a bebida. Ousar no vestuário para Bond jamais resultaria num questionamento sobre a sua sexualidade.

 

A ideia é de que, se Bond pode, todo o homem pode e, dessa forma, o público masculino começa a enxergar a moda de outra maneira. Ao longo dos anos, James Bond vai trocando uma peça ou outra em seu guarda-roupa, seguindo tendências e modismos da sua geração. Sean Connery, o primeiro agente secreto do cinema, não tinha a imagem de ícone fashion, até chegar o ator George Lazenvye, em 1979, com jaquetas esportivas, blusas de gola rolê e até o terno branco. O ator Roger Moore no papel de Bond não dispensava gravatas de estampas gráficas. O atual 007, Daniel Craig, já aderiu ao smoking azul marinho com a pegada slim, sob a influência da moda italiana, e lenços amarrados no pescoço por baixo de uma parka bonina. A verdade é que nunca o homem em toda a sua história pode ser tão homem usando roupas fashions. E James Bond é a prova disso.


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