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Em um dos locais mais preservados de Brasília, vivem 14 monges que levam vida reclusa, e de muita alegria. Conheça o Mosteiro de São Bento

Antes de entrar no Mosteiro de São Bento de Brasília, uma longa pista permite ao visitante desacelerar. Ao cruzar o portão, o tempo parece correr mais lento. É o canto dos pássaros que dá o tom exato ao local, interrompido apenas pelas badaladas dos sinos ou pelos cânticos entoados pelos monges durante as orações. Embora vivam na clausura, eles não estão fora do mundo. Muito pelo contrário, são os responsáveis por rezar pela humanidade. Há quem diga que se a Amazônia é o pulmão da Terra, os mosteiros são os do Cristianismo.

 
O barulho, algumas vezes, serve para nos dar a noção de tempo. Como ali não se escuta muitos motores de carros, buzinas, vozes ou sons de um mundo cada vez mais acelerado, temos a impressão de estarmos inertes. Ao estacionar no mosteiro, um sentimento de imensidão enche os olhos. De um lado, uma construção imponente no alto de uma escadaria. Do outro, uma árvore bonita que presenteia os visitantes com uma sombra agradável. Entre os dois, um “orelhão” reforça a ideia de um tempo que passa mesmo mais devagar.
 


 
Depois de meia dúzia de longos degraus, chega-se à loja e à capela, que  acolhe os fieis que precisam de um momento íntimo com Deus. As visitas são sempre bem-vindas. Os monges sentam-se na parte de baixo, enquanto as outras pessoas ficam em uma parte mais elevada. A imagem de Cristo com um pergaminho e uma de Nossa Senhora preenchem o lindo e colorido painel ao fundo. No pergaminho, os dizeres: "Ecce Nova Facio Omnia", que significa "Eis que faço novas todas as coisas". E realmente faz. A reportagem da GPS|Brasília conseguiu ir além. Entrou no prédio onde os monges vivem uma rotina regrada e descobriu a vida tranquila pelos corredores do claustro.
 
Moram lá 14 monges, todos homens. Na comunidade de Brasília não é permitido o ingresso de mulheres. São ex-funcionários públicos, psicólogos, letristas e tantos outros profissionais, que deixaram para trás mãe, pai, irmãos, namoradas e outras coisas para se doar inteiramente a Deus. Fecharam contas bancárias e não têm nada no próprio nome. Estão ali para orar.



 
Decidiram por uma grande mudança de vida. Recebem novas vestes, nomes e costumes. Os tantos Antônio, João e Marcelo ganham outros vocativos à escolha do prior – o responsável pela casa. Passam a usar longas túnicas pretas, chamadas “hábito”, em momentos de oração e, na medida em que se dá a formação monástica, novas peças são anexadas à roupa, como capa e capuz. Para cuidar da horta ou da loja, no entanto, podem usar roupas normais – é comum vê-los de calça e camisa polo. Também fazem o compromisso de viver três votos: obediência, conversão dos costumes e estabilidade.
 
Quem não conhece pode até ver como uma prisão, mas os monges passam a certeza de que a vida que escolheram, finalmente, torna-os plenamente livres. Apesar da dedicação, não ficam trancados ali dentro como se imagina. Eventualmente, podem sair do mosteiro, mas só com autorização do prior. Normalmente, eles vão a feiras, shoppings e até pegam uma sessão de cinema. A única quebra na rotina regrada se dá na última segunda-feira do mês, quando as portas do mosteiro ficam fechadas e eles podem acordar a hora que quiserem, sem compromissos. Uma vez por ano, depois da Páscoa, passam quatro dias em alguma cidade próxima ao DF, descansando. Normalmente, o destino é Caldas Novas (GO).

Quem são
 
Embora muitos achem que são só de alma, eles são, sim, de carne e osso. Conversam, riem, brincam e têm amigos. Nada, no entanto, em exagero. Leem jornal, trocam mensagens em redes sociais, assistem televisão de vez em quando. Apesar de reservados, não há impedimentos para que novas amizades surjam com o tempo. Quinzenalmente, em geral, vão ao supermercado fazer as compras da casa.
 
A escolha de estar ali é uma vocação. Muitos vão jovens. É o caso de Dom João Evangelista, um baiano de 24 anos, que passou pela última etapa da formação em junho deste ano. No Mosteiro desde os 18, é o monge católico mais jovem do País. “Não há nada melhor do que experimentar a alegria de ser de Deus, de ser amado. Diante dos muitos desafios que essa vida nos propõe, a liberdade sempre está em nossas mãos”, lembra. Dos pais, em 1991, recebeu o nome Ambrósio. Do prior, anos depois, João Evangelista. Sempre com um sorriso no rosto, possui uma quantidade considerável de amigos e pessoas que vão ao mosteiro para visitá-lo, a grande maioria jovens. Fruto da geração Y, também utiliza as redes sociais para evangelizar e colocar o papo em dia.   
 


 
O modo de vida simples dos monges confronta os ensinamentos do mundo atual, que prega o imediatismo. Pelos corredores da clausura, sozinhos, buscam a si próprios e encontram-se para que consigam encontrar Deus. “O melhor de ser monge é descobrir que você está sempre a caminho, nunca está pronto, que você não é perfeito”, conta Dom Mauro Cruz, 57 anos, 34 deles como monge. Quando o Mosteiro ganhou autonomia e foi elevado ao grau de Priorado, em 1995, foi ele o eleito para ser o prior do local. Hoje, 20 anos depois, faz valer os votos de obediência ao não ocupar mais o cargo para o qual o elegeram à época.

 
Para Dom Mauro, estar ali não significa estar preso. “Você pode estar entre quatro paredes e estar com o mundo todinho em você, assim como você pode estar no mundo e estar enclausurado”, lembra. “Apesar de monge significar ‘só’, é uma solidão povoada de Deus e da presença dos irmãos”, finaliza. Na nova família, o sorriso paterno dos mais velhos dá a certeza de que os laços são verdadeiros.




 
A rotina
 
Pela manhã, enquanto nas casas vizinhas do bairro mais nobre de Brasília famílias amanhecem para um dia corrido, os monges, sem pressa alguma, já rezam. O sino toca às 5h. Sem falar uns com os outros, seguem direto para a capela e lá iniciam a primeira oração: “Senhor, abri meus lábios”, enquanto passam o dedo na boca em forma de cruz. A partir de então, o diálogo está permitido. Quando terminam as vigílias – como é chamado esse primeiro momento juntos –, o sol começa a surgir. Durante todo o dia, têm outros seis momentos de oração em comum na capela.
 
As três principais refeições – café da manhã, almoço e jantar – são feitas no refeitório. Não é permitido conversar enquanto comem. Pela manhã, canto gregoriano é a única coisa que quebra o silêncio. No almoço e no jantar, a voz é a de um dos irmãos, que se senta em uma cadeira, com uma pequena mesa à frente, que serve de base para o microfone, e faz leituras bíblicas ou espirituais. Acredita-se, segundo a regra de São Bento, que no mesmo tempo em que se alimenta materialmente é preciso se alimentar espiritualmente.

 



Durante o dia, eles circulam pelo pátio interno – onde os visitantes não têm acesso –, que tem um jardim com algumas flores em volta de um chafariz, além das imagens de São Bento, da Imaculada Conceição (pintada pelo próprio prior) e outra da Virgem Maria. Algumas vezes, nos fins de semana, o som do órgão (único instrumento utilizado nas orações) é abafado por músicas eletrônicas ou o som de funk provenientes de festas que acontecem à outra margem do lago.
 
Por volta das 19h, já satisfeitos com o jantar, reúnem-se em uma área com várias cadeiras que formam um círculo para o “Recreio”. É o momento de confraternizar e conversar. Dura apenas meia hora. Após isso, voltam para a capela para a última oração do dia. Às 20h, dirigem-se aos aposentos e o portão do Mosteiro é fechado.
 

O lugar onde os monges dormem é chamado de cela. Elas são individuais e é proibido que sejam acessadas por qualquer outra pessoa, inclusive outros monges. No total, são 32. Dentro, cada irmão arruma como quiser. Tem uma cama, escrivaninha, guarda-roupa e um banheiro. Também são eles os responsáveis pela faxina das próprias celas. Lá estudam, leem, ouvem as músicas que gostam e mexem no computador. No Mosteiro de Brasília, o uso da internet é liberado pelo prior. A senha: oraetlabora.




 
Ora et labora
 

O termo em latim significa “Ora e trabalha”. É o princípio da vida beneditina. Engana-se quem pensa que os monges estão ali só para rezar. Como o Mosteiro não tem uma casa de formação, alguns deles estudam no vizinho Seminário Redemptoris Mater. Um deles, psicólogo, obteve permissão do prior para realizar atendimentos no Mosteiro. Quem já fez a Profissão Temporária, tem direito a férias de 30 dias, uma vez por ano. Normalmente, visitam as famílias.
 
Eles também cultivam uma horta, pintam imagens de santos e fazem as próprias vestes. Fora isso, mantém uma lojinha ao lado da capela. Lá, vendem o que produzem: pães, licores e biscoitos. Estes últimos acabam num piscar de olhos depois da missa dominical, sempre cheia de fieis. A receita, que leva farinha de trigo, leite, açúcar e raspas de limão, é unanimidade no gosto dos visitantes. “Tem alguns irmãos que não fazem [o pão e o biscoito]. Eu, por exemplo, nunca acertei o ponto”, brinca um dos monges.




 
Para ajudar nas tarefas do dia a dia, o Mosteiro tem quatro funcionárias: duas cozinheiras, uma faxineira e uma lavadeira. Ao claustro, como é chamado o local restrito aos monges, elas são umas das poucas pessoas que têm acesso liberado. Elas também cuidam da hospedaria, uma das principais fontes de renda do local – além das vendas da lojinha e das doações. Seja individual ou em grupo, quem quiser, a depender a disponibilidade de quartos, pode se hospedar no Mosteiro. Confortáveis, os quartos têm três camas, uma cadeira, uma mesa, guarda-roupa e um banheiro. Na janela, uma tela contra insetos protege o hóspede de visitas inesperadas.
 
Para quem não é vocacionado à vida religiosa, pode ser difícil compreender a decisão de largar tudo o que tem e seguir a Cristo, mas a certeza e a alegria de estarem ali estampadas nos rostos dos monges é tão grande que fica fácil perceber o testemunho verdadeiro do Evangelho. Estão no mundo, mas não são do mundo. Como águias, solitárias e livres, desenham o próprio céu.

 
Os monges


Para se tornar um monge, o processo leva anos. Primeiro é feito um acompanhamento vocacional, por e-mail, carta ou diretamente no Mosteiro, quando o candidato é convidado a passar uns dias na casa e acompanhar a rotina dos monges. Em seguida, é convidado a passar, aproximadamente, três meses com os irmãos. Após esse período, caso deseje, ingressa no Postulantado, que leva um ano, depois o Noviciado, que dura dois anos. Ao fim desse período, tornam-se monges e fazem os votos. A esse período dá-se o nome de Profissão Temporária. Três anos depois, fazem a Profissão Solene, quando é consagrado e tem os votos ratificados. Passa, então, a carregar, antes do nome, a palavra “Dom”.
 

Origem

A ideia de um mosteiro na cidade existia desde a fundação de Brasília. No entanto, só em julho de 1987 a Abadia de Olinda, Pernambuco, fez morada no DF. Em um terreno no final do Lago Sul, às margens do Lago Paranoá, eles têm como vizinhos um Seminário, um Carmelo e a Ermida Dom Bosco. É naquele pedacinho de Cerrado que se ergueu o Priorado Conventual da Santa Cruz de Brasília, um dos vários mosteiros benebeneditinos espalhados pelo Brasil.
 

Serviço
Mosteiro de São Bento de Brasília
SHDB QL32 Conjunto 1 Bloco B - Lago Sul
(61) 3367-2949
www.msbento.org.br

 


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